Loucos de sabidos
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de setembro de 1998
Ruy Fernando de Oliveira 
A intenção de fraudar, de engodar, manifesta-se em situações e formas diversas.
A má-fé escolhe caminhos às vezes surpreendentes.
Nesses propalados casos de criminosos em série, que revelam extrema crueldade, acabamos na verdade torcendo por que a perícia médica defina o examinando como psicopata: a conclusão por sua sanidade significa um golpe em todos nós humanistas, defensores da tese da bondade intrínsica da pessoa humana, e uma vitória dos profetas do destino trágico da raça, com seus supostos criminosos natos e de índole.
Porém sempre se pode identificar aí a dissimulação e a astúcia no modo com que atraem as vítimas, ou a forma ambígua com que se comportam em seus elaborados interrogatórios (embora o evento brutal já esteja a sugerir, por si só, a presença de grave perturbação mental).
Com finalidade bem diversa, mas idêntico empenho, outras figuras públicas costumam se adestrar na arte de fingir e de ludibriar o próximo, com o beneplácito de uma platéia atenta, comportada ou mesmo entusiástica.
Os propósitos dos enganadores são múltiplos. Mas os que estão associados à pecúnia ganham cada vez mais espaço, e seus adeptos já se sentem à vontade para invadir nossas casas e nossas vidas.
Eis os delinquentes consentidos.
Dá-se guarida, nos meios de comunicação em geral, a todo tipo de contrafação da realidade, de pseudociência, de administração de fórmulas de bem-aventurança.
Quanto mais fantástica e absurda for a promessa, maior o seu prestígio.
Não há, entre os pretensos fiscalizadores de tais atividades, o mínimo interesse em exigir rigorosa comprovação de fatos. Os argumentos prosaicos ou as mais elementares técnicas de persuasão são suficientes para criar adeptos, arrastar multidões, ou alimentar uma literatura escapista, alienada, supersticiosa, com o aproveitamento da inegável capacidade de aceitar, de acreditar e de sonhar do nosso povo, em todos os quadrantes.
E, enquanto os milagres prometidos não acontecem, arregimentam-se e distraem-se os crédulos, que constituem a matéria-prima, a fonte de renda desse exército de bem-sucedidos aproveitadores.
Pelo número 0900, da TV, podemos tanto entrar em contato com prostitutas quanto com magos, especialistas em auto-ajuda, adivinhos, vendedores de cadeiras no céu, salvadores da alma, demonólogos, curandeiros e todo tipo de exploradores da fé popular, a maioria com intenções nada recomendáveis.
São cambaxirras que se alimentam (e bem) de misérias, ilusões e falsas esperanças.
Alguns deles se tornam até divertidos em sua estudada doidice. Outros são patéticos ou ridículos em seu proposital anacronismo.
Todos sabem, em maior ou menor proporção, que estão enganando. Têm consciência da própria indignidade.
Costuma-se ultimamente afirmar, talvez como forma de justificar a nossa inércia e falta de providências contra tanto abuso, que eles são é loucos, olhe como tem biruta.
Simples como olhar desinteressadamente um programa. A qualquer momento pode-se virar as costas.
O certo é que a indústria do induzimento a erro mediante ardil ou artifício, com a finalidade de obter vantagem ilícita, campeia solta e livremente. E com o consentimento, até a ajuda da vítima (pretendida beneficiária), quase sempre uma carente afetiva à procura de evidência e reconhecimento.
Na propaganda eleitoral também se vê um desfile diário de exóticos, careteiros, tipos delirantes e messiânicos.
Há os que aproveitam para, passando-se por uma espécie de justiceiro desequilibrado, sugerir que ainda ocupam postos, funções ou cargos estratégicos, respeitáveis, influentes, mas omitindo a sua condição de inativos ou afastados.
Enfim, manipuladores e oportunistas de todos os naipes.
Apenas a permissividade, o incentivo tácito ou explícito à exploração de ingênuos e desesperados, podem explicar tamanha onda de práticas tão claramente danosas. Os prejuízos podem ser irreversíveis.
Enquanto isso os profissionais do Direito, trancados e absortos atrás das pilhas de processos em nossos gabinetes de trabalho, ou meditando na escuridão confortadora de nossos aposentos domésticos, tratamos de achar que, afinal, está tudo certo: se o povo se distrai, deixa de pensar no essencial, seja lá o que isto represente (e que não temos tempo de enfrentar), pouco importando que os rapineiros se fartem.
* Ruy Fernando de Oliveira


