Loterias esvaziam jogo do bicho
Marcos Zanatta
De Maringá
A proliferação de jogos oficiais, o sorteio de prêmios milionários acumulados e a crise financeira está afetando o jogo do bicho, primeira loteria de números do Brasil, com mais de 100 anos de existência. A decadência do jogo do bicho, segundo os próprios bicheiros, começou com a criação dos jogos de números.
Há menos de 20 anos, apenas os chamados bilhetes federal e estadual, além da loteria esportiva, faziam concorrência com o bicho. Mas eram apostas diferentes, que não envolviam a opinião numérica do jogador como acontece hoje, lembra o bicheiro, que não se identifica.
O governo federal, através da Caixa Econômica Federal, começou então a lançar as loterias de números, seguida pelo governo do Estado. Hoje são quatro tipos de apostas em todo o Brasil: a Megasena, a Supersena, a Quina e, mais recentemente, a Lotomania, lançada no final do mês passado. Existem também a Premiata e a Pimba, promovidas pelo Estado.
Para lançar a Lotomania, a Caixa Econômica mostrou as vantagens da nova loteria de números, que terá seis faixas de premiação. Mesmo quem não acerta nenhum número sorteado vai receber prêmio. A CEF esclarece que 50% da arrecadação vai para programas sociais, como crédito educativo, projetos culturais e esportivos.
Com a diversidade de opções e muito mais os prêmios milionários, que atraem até os mais resistentes aos jogos, o jogo do bicho entrou em crise. Só o pessoal mais velho, que gosta mesmo do jogo, continua apostando com a gente, afirma o comerciante Adelino Alves Parizotto. Ele marca jogo de bicho há mais de seis anos em um bar de sua propriedade na Vila Operária, em Maringá, e diz que o jogo do bicho não pode acabar.
Apesar das apostas minguarem, muita gente ainda depende disso, justifica. O que mais atrai os jogadores e também os apostadores, segundo Parizotto, são as vantagens do jogo do bicho.
O pessoal que marca fica com uma comissão de 15%, que se não fossem os valores baixos e os poucos apostadores, faria um lucro bom. O apostador que tem o hábito de jogar prefere o bicho porque pode apostar o valor que quiser e se acertar recebe o prêmio no mesmo dia, sem burocracia.
Outro marcador de jogo de bicho, João Cornélio da Silva, do Conjunto Thais, diz que está há pouco tempo no serviço. O pessoal que fazia a fezinha aqui saiu porque não tem mais apostador, acredita. Ele diz que aceitou o emprego porque não acha outro serviço. Além das loterias, Silva culpa a crise financeira pela redução nas apostas.
Praticamente todos os dias os aposentados vão até a loja de apostas, olham o resultado do dia anterior, conversam um pouco e vão embora. Se eles tivessem um troquinho apostavam porque o bicho aceita até as moedinhas de centavos. Ele calcula que faz entre 20 a 30 jogos por dia. O problema é o valor baixo, diz.
Em outro bairro de Maringá, o Jardim Grevílea, o marcador Vitor Batista conta que está no serviço há dois anos e que nos últimos nove meses o número de apostas caiu pelo menos 50%. Já estava fraco e agora a crise está impedindo o pessoal de jogar até as moedinhas de centavos, diz.
Para ele, o jogo do bicho sobrevive graças aos valores das apostas, que podem ser de qualquer quantia, e também aos idosos. Os jovens dificilmente procuram o bicho, a não ser quando sonham com bichos e números.
O que mais tem prejudicado o jogo do bicho, nas últimas semanas, reclama Batista, é a Megasena acumulada. As pessoas que gostam de apostar esquecem os outros jogos. Para não ficar ainda mais prejudicado, Batista conta que faz alguns cartões, joga na lotérica e vende no ponto a R$ 1,20, faturando R$ 0,20 em cada cartela vendida. A gente lamenta apenas que a Megasena acumulada não incentiva outros jogos.





