Avanços em tratamentos de saúde e novas tecnologias aplicadas a procedimentos médicos fizeram a expectativa de vida da população aumentar de forma expressiva e, ao mesmo tempo, permitem que pessoas acima de 60 anos tenham mais disposição e ânimo para realizar as tarefas diárias. Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a população que até 1940 vivia em média 45,5 anos, hoje chega aos 75,8 anos. Até 2020, a expectativa de vida deve ser de aproximadamente 78 anos.
A idade avançada também traz novas preocupações. Pesquisa feita pela SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia), de São Paulo, em parceria com a empresa farmacêutica Bayer, revela que 63% das pessoas acima dos 55 anos já refletem sobre a terceira idade. No levantamento, foram consultadas 2.000 pessoas com mais de 55 anos em dez capitais do País.
Para o geriatra Fábio Garani, envelhecer com qualidade depende de cinco fatores: alimentação balanceada, atividade física, vínculos familiares e sociais, atividade laboral (voluntária ou não) e crença religiosa. A solidão, segundo ele, contribui para o aumento de casos de depressão e até de doenças mentais. "Quem tem amigos envelhece melhor. O vínculo social é de extrema importância", constata. Na pesquisa, 29% dos entrevistados disseram ter medo da solidão. Outros 21% mencionaram que temem apresentar dificuldades para enxergar ou se locomover. "Para os idosos, autonomia e independência são fundamentais."
Novas tecnologias aplicadas à medicina, fórmulas mais avançadas e a distribuição de remédios por meio da rede pública de saúde contribuíram ao longo dos anos para melhorar a qualidade de vida da população na terceira idade. Conforme o geriatra, a vacina contra a gripe é oferecida aos idosos há quase 20 anos. A medida tem reduzido índices de mortalidade e de internações na faixa etária acima dos 60.
O especialista comenta que mortes ocasionadas por fratura no fêmur, por exemplo, que antes correspondiam a 30% do total, hoje caíram para menos de 20%. O perfil dos atendimentos também mudou. Garani conta que tem aumentado a quantidade de homens que procuram o consultório. Considerando também as mulheres, os pacientes com idade entre 80 e 85 anos estão mais saudáveis nas últimas décadas. Muitos atendidos pelo especialista já passaram dos cem anos. "Oitenta anos no meu consultório é a idade de um menino. Atendo pacientes com até 103 anos", comenta com bom humor.

DESAFIOS
Em relação à saúde mental, o hábito de ler, preencher palavras cruzadas, jogar xadrez e fazer trabalhos manuais como crochê estimulam a mente, mas não é necessário iniciar essas práticas apenas por "obrigação". Para o especialista, a principal meta deve ser desafiar o cérebro a fazer coisas novas. "Se você faz crochê, por exemplo, o ideal é tentar um ponto diferente no mês seguinte. A mesma coisa a leitura. É interessante ler livros de estilos variados ou de outros autores que a pessoa não está acostumada. Viagens são extremamente estimulantes. Não é preciso que o idoso se force a fazer algo de que não goste, mas colocar novos desafios em um hábito que ele já considere interessante faz a diferença. Videogames com sensor de movimento também estimulam os idosos a se movimentar e ajudam na interação com a família."
Garani cita a falta de investimentos em políticas públicas voltadas para os idosos, principalmente no setor da saúde. Segundo ele, casos de depressão em idosos são comuns. Porém, são subnotificados e subdiagnosticados.
Já a falta de preparo das famílias e da sociedade como um todo para lidar com as chamadas demências compromete a qualidade de vida dos idosos. Entre as doenças de maior prevalência está o Alzheimer. "Essa doença demanda muito dinheiro, estudo, políticas públicas e uma rede de apoio que hoje em dia nós não encontramos", lamenta o geriatra.
A partir dos 40 anos, conforme o médico, a população já pode procurar um geriatra para orientações gerais como vacinas recomendadas para esta faixa etária, dicas de hábitos saudáveis e análise de doenças familiares. "É preciso parar de aceitar aquela expressão que eu detesto ‘Isso tudo é porque está ficando velho. É assim mesmo’. É preciso buscar qualidade de vida", conclui.

FELICIDADE NAS TECLAS DO ACORDEÃO



Maúde Fernandes, Luanda Silva e Marlene Nunes (atrás, esq. p/dir.) e  Delmar Martins, Sônia Lepri e Marli Pongelupe (esq. p/dir.): depois de quase 40 anos, amigas voltaram a tocar juntas
Maúde Fernandes, Luanda Silva e Marlene Nunes (atrás, esq. p/dir.) e Delmar Martins, Sônia Lepri e Marli Pongelupe (esq. p/dir.): depois de quase 40 anos, amigas voltaram a tocar juntas | Foto: Anderson Coelho



Não tente marcar qualquer programa com Sônia Lepri e sua turma para uma quinta-feira. Neste dia, o ensaio é sagrado para o conjunto de acordeonistas de Londrina. "É acordeão, não é sanfona. Sanfona é para animar quadrilha de festa junina. O acordeão é muito mais que isso, é um instrumento completo", explicam quase em uníssono as seis mulheres que formam o conjunto musical.
O gosto pela música começou cedo, com as aulas da mãe de Sônia, a musicista Evelina Grandis. Sônia e as amigas Luanda Silva, Marlene Nunes, Delmar Martins, Marli Pongelupe, Maúde Fernandes se orgulham de terem se apresentado na inauguração da Concha Acústica de Londrina, em 1957. O grupo prosseguiu, ainda, por alguns anos. Depois de um hiato de quase quatro décadas, elas voltaram a se reunir em 2002. Neste ano, tornaram a se apresentar nas comemorações de 50 anos do espaço. "Foi muito emocionante", diz Maúde.
Além da paixão pela música, elas contam que a decisão de retomar o conjunto foi para terem "com o que ocuparem a cabeça". "Na nossa idade, o risco de ter uma depressão é muito grande se você não mantem a mente ocupada", adverte Marlene. Segundo elas, não há espaço para tristeza durante os ensaios. "Quando nos reunimos, parecemos um bando de periquito no milharal. Além de ensaiar, sempre tem um tempinho pra colocar o papo em dia e comer bastante", diz Luanda.
Para Marli Pongelupe, o segredo para uma velhice saudável é manter o corpo e a mente em atividade. "Eu faço exercícios físicos cinco vezes por semana. Vou para a academia a pé. Acho que todos deveriam se preocupar com isso", incentiva. "A parte da atividade física eu deixo pra ela. Eu prefiro a música mesmo", brinca Sônia. Elas relatam que o importante é não parar no tempo. "Nós tocamos todo um repertório clássico, antigas canções, mas estamos atentas às novas músicas. Agora, estamos ensaiando Trem Bala, da nossa compositora londrinense Ana Vilela", conta.
O conjunto já se apresentou em mais de 30 cidades paranaenses e de Santa Catarina. Em Londrina, fazem apresentações em asilos, hospitais, escolas. "Uma vez tocamos na UTI do Hospital Universitário. Descobrimos que tinha um senhor italiano internado lá. Então, nós tocamos uma música clássica daquele país. Ele reconheceu e se emocionou muito e nos emocionou também", lembra Delmar. "Acho que levar alegria para as pessoas é uma boa forma de se manter saudável", completa.

'VIDA LONGA DEPENDE DE FATORES CULTURAIS'



Mário Martinez, neuropsicólogo americano: cérebro interpreta crenças étnicas e as traduz para os sistemas imunológico, endócrino e nervoso
Mário Martinez, neuropsicólogo americano: cérebro interpreta crenças étnicas e as traduz para os sistemas imunológico, endócrino e nervoso | Foto: Marcos Zanutto



Alguns lugares do mundo são famosos pela alta expectativa de vida de seus habitantes, como a ilha de Okinawa, no Japão, países do Mediterrâneo e, no Brasil, algumas cidades do interior do Rio Grande do Sul. Por muito tempo, a relação desses povos com a longevidade foi associada à questão genética e ao modo de vida, incluindo dieta e prática de atividades físicas.
Para o neuropsicólogo americano Mário Martinez, autor de pesquisa científica com centenários saudáveis de vários países, apenas 20% a 25% do fator saúde podem ser atribuídos à genética. A maior parte, segundo Martinez, está relacionada ao modo como as pessoas vivem, se relacionam e com suas crenças culturais.
Martinez admite que a boa alimentação e a prática de exercícios são fundamentais para se chegar aos cem anos com saúde. Porém, ele pondera que outros fatores ligados ao modo de vida também são muito importantes. "É uma combinação de mente e corpo. Os dois não podem ser dissociados", afirma. O binômio mente-corpo para a longevidade saudável é a base da teoria biocognitiva, de autoria de Martinez e apresentada em seu último livro "The Mindbody Self", lançado este ano e traduzido para o português por Luciana Segatin.
A teoria de Mário Martinez, que já expôs seus estudos em documentários científicos exibidos pela National Geographic, CNN, BBC e Discovery Channel, afirma que o cérebro interpreta crenças étnicas e as traduz para o sistema imunológico, endócrino e nervoso. "Um exemplo prático é a menopausa. Na Bolívia e em outros países sul-americanos, a sensação de exaltação do calor na menopausa é chamado de bochorno, palavra em espanhol que significa vergonha. A vergonha causa inflamação, baixa autoestima, dores. No Japão, onde a menopausa é tratada como a segunda primavera, algo positivo, as mulheres não enfrentam o mesmo problema", compara.
"A nossa biologia responde às interpretações que o nosso cérebro faz do mundo, e isso afeta a qualidade dos nossos relacionamentos, da nossa saúde e da longevidade. A nossa percepção do mundo é aprendida por nossas crenças culturais, mas existem métodos capazes modificar o significado do que nos afeta em maneiras negativas e restritivas", afirma.
O médico também quebra alguns paradigmas ao afirmar que a velhice saudável é sinônimo de flexibilidade. "Dos muitos centenários saudáveis que conheci, poucos são vegetarianos. Raríssimos são veganos. A maioria é flexível e sabe usar o bom senso", diz. Outro ponto abordado por Martinez são os rituais. "Em Cuba, encontrei centenários que não dispensam uma pequena dose diária de rum, ou um charuto. Não consomem álcool ou tabaco em excesso e o ritual os mantém motivados." Ele também cita o almoço em família e a conversa com amigos como rituais indispensáveis. "A tecnologia pode ser boa se bem usada, mas não pode tomar o lugar do convívio pessoal com as pessoas que gostamos."
Ao fim da entrevista, quando questionado sobre a sua idade, Martinez desconversa: "Segredo", explicando-se na sequência. "Quando você revela a sua idade, passa a ser tratado por convenções de acordo com aquela faixa etária. Prefiro viver sem ter pessoas me rotulando em função da idade." Martinez ministrou um workshop sobre longevidade em Londrina.

mockup