Setenta e quatro pessoas se submeteram à coleta de sangue para diagnóstico da doença de Chagas em Londrina, ontem, atendendo ao chamado da Secretaria Municipal de Saúde. Um esquema especial foi montado no Centrolab, no mesmo prédio do Pronto Atendimento Municipal (PAM), para fazer exames em todos aqueles que consumiram caldo de cana no litoral norte de Santa Catarina entre 1º de fevereiro e 20 de março. A coleta continua hoje e amanhã, das 7 às 10 horas, independente da greve dos servidores municipais.
A procura ficou aquém da expectativa da gerente de Epidemiologia do Município, Sônia Fernandes, que acredita que um número bem maior de londrinenses pode ter visitado o estado vizinho no período suspeito. ''É importante que as pessoas que se encaixam nesse perfil façam o exame, mesmo que estejam se sentindo bem. Entre 80% e 90% dos pacientes infectados não apresentam os sintomas, a princípio'', alertou. Estima-se que 50 mil pessoas tenham consumido caldo de cana sob suspeita de infecção.
O depoimento da esteticista Lucélia Marina Luchetti, 27, comprova que os riscos de infecção estão sendo subestimados. Ela e o namorado foram os únicos de um grupo de oito pessoas que viajaram para Itajaí (SC) no Carnaval a fazer o exame de sangue. Quase todos tomaram caldo de cana. ''Os outros não quiseram vir, não sei se ficaram com medo da agulha ou o quê'', comentou. O namorado de Lucélia contou que teve vômito, febre e diarréia ao retornar para Londrina, mas que melhorou dias depois. Já o supervisor de trânsito Wellington Luis Marcatti, 26, consumiu caldo de cana em Navegantes (SC) no início de fevereiro, mas não sentiu nada. ''Mas fiquei assustado com as notícias. Fiz o exame por desencargo de consciência.''
Sônia explicou que as cinco mortes já confirmadas em Santa Catarina ocorreram durante a fase aguda da doença de Chagas, cujos sintomas podem surgir na forma de dores na cabeça e pelo corpo, febre em período superior a cinco dias, mal-estar generalizado, dificuldade respiratória, alterações cardíacas e icterícia (cor amarelada). Segundo a gerente, a manifestação aguda da doença é rara e nunca ocorreu em Londrina, tanto que até hoje não existia tratamento específico disponível na rede pública.
Ao mesmo tempo que pode matar rapidamente, a fase aguda da doença é a única que permite a cura, quando tratada. ''Daí a importância de se fazer o diagnóstico e o tratamento o quanto antes, para evitar que a doença se cronifique. Na fase crônica não há mais cura, você só trata os efeitos, quando possível'', salientou Sônia, acrescentando que possíveis casos serão tratados no Hospital Universitário (HU).
As amostras de sangue colhidas em Londrina estão sendo enviadas no mesmo dia ao Laboratório Central do Estado (Lacen), em Curitiba. São dois exames: o de gota espessa, onde se verifica a presença do protozoário Trypanossoma cruzi, e o de sorologia, que identifica a produção de anticorpos contra a doença. ''A promessa do Lacen é de nos enviar os resultados em dois dias, principalmente os positivos. Nós mesmos entraremos em contato por telefone com os pacientes para informá-los'', avisou a gerente.

Serviço:
- A coleta de sangue estará disponível hoje e amanhã, das 7 às 10 horas. O exame é gratuito. O Centrolab fica no prédio do Pronto Atendimento Municipal (PAM), na esquina das ruas Benjamin Constant e Duque de Caxias (Centro de Londrina).
- Devem fazer o exame as pessoas que consumiram caldo de cana entre 1º de fevereiro e 24 de março, em quiosques às margens da BR-101 e nos seguintes municípios: Araquari, Barra Velha, Balneário Barra do Sul, Camboriú, Guaruva, Itajaí, Itapema, Itapoá, Joinville, Navegantes, Penha, Piçarras e São Francisco do Sul.

mockup