Londrinense supera cegueira e chega à ONU
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quinta-feira, 25 de agosto de 2005
Betânia Rodrigues<br>Reportagem Local 
Determinação é a palavra mais adequada para explicar a trajetória de sucesso do londrinense Fernando Henrique Fedrigo Botelho, 35 anos, que adaptou-se à cegueira, e hoje é consultor da Organização das Nações Unidas (ONU), da Organização Mundial do Comércio (OMC) e da United Nacional Conference on Trade and Development (Unctad).
A deficiência visual é resultado de uma doença degenerativa incurável, conhecida como retinose pigmentar, descoberta pela família aos quatro anos de idade, com ápice aos 16. ''Nessa época, fazia o colegial no Colégio Marista, usava gravador para captar o conteúdo das aulas, alguém lia a prova para mim, eu ditava as respostas e assim conclui o Ensino Médio'', lembra Botelho.
Convencido de que, para competir no mercado de trabalho precisaria ser melhor do que as pessoas que possuem a visão, o londrinense buscou a melhor qualificação possível. Com o apoio dos pais, cursou Sociologia na Universidade de Cornell, em Nova Iorque (EUA), e tornou-se mestre em Relações e Comércio Internacional pela Universidade de Georgetown, em Washington, em 1995.
A mudança para o exterior ocorreu porque o pai na época foi transferido para a Espanha . Antes disso, ele fez o curso de Processamento de Dados no Cesulon (atual Unifil) e Economia na Universidade Estadual de Londrina (UEL). ''No Brasil, as instituições de ensino têm dificuldade para atender alunos deficientes. Durante a faculdade e até hoje copiava livros e revistas no scanner, transferia o material para um computador portátil que lê os textos para mim e funciona ao comando de voz'', detalhou Botelho, que conquistou a quarta melhor colocação entre 903 alunos do curso.
Apesar do esforço próprio e da cooperação de amigos, Botelho enfrentou muitos percalços. Universidades inglesas e americanas a priori mais desenvolvidas rejeitaram sua deficiência; como tantos outros brasileiros, sofreu com o desemprego em terras estrangeiras e a falta de dinheiro o impediu de visitar a família por muito tempo. ''Em nosso País, entre 80% e 90% dos deficientes passam dificuldades financeiras. O preconceito e a ignorância em relação ao deficiente são obstáculos à inserção no mercado de trabalho e ao convívio social'', afirma o sociólogo. ''Nos Estados Unidos que é um País de rico e de Primeiro Mundo os problemas deveriam ser menores. No entanto, o desemprego lá atinge, pelo menos, 70% dessa população.''
Graças à poderosa rede de relacionamentos, ele chegou à ONU, mas garante que sua posição não é questão de inteligência privilegiada ou riqueza. É claro que a condição financeira dos pais facilitou sua vida. Um computador igual ao dele custa cerca de US$ 800 a US$ 900 mais que uma máquina comum. No entanto, sem empenho e crença na capacidade ele não sairia do lugar. Assim como outros deficientes visuais, Botelho usa bastão e, muitas vezes, necessita de outras pessoas para atividades corriqueiras do dia-a-dia.


