Londrinense relata experiência; universitária cria publicação
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sexta-feira, 29 de setembro de 2000
Maranúbia BarbosaDe Londrina 
Clínicas clandestinas de aborto para todos os bolsos e quem paga mais sofre menos. Essa é a realidade enfrentada pela mulher que decide interromper a gravidez. Sofisticadas ou não, o ambiente é sempre tenso, conta a londrinense Alice (nome fictício), hoje com 23 anos. Há dois anos, grávida de três meses, optou pelo aborto. Apesar do preço elevado, as clínicas são muito procuradas.
Alice pediu ajuda das amigas para pesquisar preços em Londrina, Maringá, Curitiba e São Paulo. Os preços, segundo ela, variam de R$ 1 mil até R$ 3,5 mil dependendo do mês de gestação. O método de remoção do feto por sucção acaba saindo mais caro devido à quantidade de medicação. Alice pagou R$ 1 mil à vista, em dinheiro por uma curetagem. Não aceitam nem cheque, comentou.
Sem dispor de equipamentos emergenciais, as clínicas atendem apenas com o médico e uma enfermeira. Por causa do preço, a maioria das mulheres escolhe clínicas precárias, onde a falta de higiene é comum, informou.
Alice disse que ficou aspirando uma substância anestésica durante a curetagem. Senti muita dor, revelou. Ela calcula que o aborto tenha levado uns 30 minutos, mas pareceu uma eternidade. Segundo Alice, o médico que a atendeu demonstrou tranquilidade e isso fez com que ela não tivesse tanto medo. Ela relatou que o primeiro médico que procurou em Londrina assediou-lhe. Foi horrível. Se eu pudesse teria denunciado.
De acordo com Alice, a sensação de alívio após o aborto foi enorme. Não sou desumana, mas a gravidez era um peso. Doeu, mas foi menos do que eu sentia antes. Ela confessou que a única sensação de culpa foi pela minha falta de responsabilidade em não ter evitado.
Conhecendo a história de Alice e outros casos semelhantes a estudante universitária Paula Carolina Dias, 20 anos, de Londrina, criou um fanzine sobre aborto. Exemplares da publicação já foram expostos em feiras culturais no Rio de Janeiro, São Paulo e Joinville. Ela faz a distribuição na faculdade e pelos Correios.
No editorial, Paula ressalta a importância de se discutir o assunto. Ela diz que é a favor da escolha, e não do aborto em si. Segundo Paula, que tem um bebê de um mês, a mulher tem todo o direito de deliberar sobre seu próprio corpo. Legalizar o aborto evitaria mortes e traumas ireversíveis em clínicas clandestinas, argumentou.
Enquanto estava produzindo o fanzine Paula conversou com muitas mulheres que fizeram aborto, entre elas a amiga Alice. Entretanto, o índice de aborto entre as mulheres casadas é grande, constatou Paula.
Paula acredita que a influência da Igreja Católica ainda pesa, até na hora de se discutir o tema. Tem sempre alguém falando: por que você não se cuidou?. Paula acredita que condenar é fácil, difícil é apresentar soluções.


