Eduardo Anizelli, londrinense e fotojornalista da Folha de S.Paulo, foi um dos vencedores do “Oscar” do fotojornalismo mundial, o World Press Photo 2026. Seu ensaio “Aqueles que carregam os mortos” sobre a megaoperação policial nos Complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, em outubro de 2025, competiu com trabalhos submetidos por mais de 3 mil profissionais de 141 países. Foram 42 vencedores no total, que ofereceram perspectivas únicas sobre o mundo em que vivemos, conforme os responsáveis pelo concurso. “Pé-vermelho nato”, como se descreve, Anizelli iniciou sua carreira na Folha de Londrina em 2001 e permaneceu até ir para São Paulo em 2008. Desde então, acumula coberturas país afora, vitórias em prêmios e fotografias publicadas em veículos internacionais.

Imagem ilustrativa da imagem Londrinense ganha ‘Oscar’ do fotojornalismo mundial
| Foto: Bárbara Campos

Um júri independente analisou 57.376 fotografias submetidas por 3.747 profissionais. Os trabalhos premiados destacam problemas urgentes e atuais em nível mundial, como crises climáticas, guerras, protestos, incêndios, deportações, assassinatos e ataques terroristas. Os ganhadores foram divididos por regiões, sendo África; Ásia-Pacífico e Oceania; Europa; América do Norte e Central; América do Sul; Ásia Ocidental, Central e Meridional. Foram sete vencedores na categoria América do Sul, incluindo dois brasileiros, Anizelli e Priscila Ribeiro, que trabalha em Curitiba.

Cenário de guerra

Seis meses atrás, a Operação Contenção deixou 122 mortos e se tornou a mais letal da história do Brasil. Conforme a Segurança Pública do Rio de Janeiro, ela objetivava conter os avanços do Comando Vermelho. Uma série de 10 fotos capturadas por Anizelli, em cobertura pela Folha de S.Paulo, venceu a categoria “Histórias” no World Press Photo 2026. O autor destacou que a maior parte dos mortos foi composta por negros, com um “desgoverno” insistindo na violência como reposta ao invés de educação e inclusão.

Anizelli contou que é de praxe o Comando Vermelho colocar fogo em barricadas para tentar impedir a entrada da polícia quando uma operação está em vigor, e que no dia 28 de outubro “estava exagerado”, com muitos focos de incêndio desde o início da manhã. O jornalista conseguiu acesso ao Complexo da Penha às 7h e fotografou tiroteios até 12h, quando policiais começaram a descer com um grande número de homens algemados, fotografados por Anizelli com os rostos abaixados enquanto aguardavam transporte.

Traficantes de drogas queimaram um carro para usá-lo como barricada e impedir a entrada de policias no Complexo da Penha
Traficantes de drogas queimaram um carro para usá-lo como barricada e impedir a entrada de policias no Complexo da Penha | Foto: Eduardo Anizelli/Folha de S.Paulo/World Press Photo 2026

Em seguida, ele se dirigiu ao Hospital Estadual Getúlio Vargas, porque o número de mortos começou a subir “absurdamente”. “Pra mim, lá é um hospital de guerra, porque em toda operação chegam mortos de tudo quanto é jeito. Eu já tinha feito algumas outras operações impactantes ali, de chegar pessoas na caçamba de caminhonete, dentro de carro, parece um açougue”, comparou Anizelli. Com a chegada de mais corpos em um caveirão - veículo blindado - da polícia, os familiares que estavam aguardando para reconhecer os falecidos cercaram os profissionais da imprensa, dizendo que tinham mais pessoas mortas na mata e que os policiais estavam impedindo a passagem de quem queria subir o morro para recolhê-las.

“Conseguiram montar um esquema para a gente subir em uma caravana da imprensa, mas quando viramos em uma rua, a polícia deu tiros pra cima e parou a gente. Não deixaram passar e aquilo ficou na minha cabeça, falei ‘se já acabou a operação e não deixaram subir, alguma coisa tem’”, recordou o profissional. Assim, retornou no dia seguinte às 5h com um colega de trabalho com o objetivo de adentrar na mata. O companheiro informou que pelo menos 30 corpos já estavam enfileirados em uma praça da comunidade. Ambos tiveram a passagem liberada e subiram pendurados no estribo de uma caminhonete.

Assim que Anizelli desceu do veículo, encontrou uma mulher ajoelhada ao lado do corpo de seu esposo, coberto por um lençol amarelo. “Ela gritava muito, pedia pra ele levantar e ir embora pra casa. Ficava falando que sabia que essa vida não ia dar futuro, que ia acabar nisso, e chorava muito”.

‘Tinham que ser julgados, não mortos’

Quando se deparou com a fileira de corpos também cobertos por lençois, moradores começaram a descobri-los, gritando que “tem que mostrar a covardia para eles”. “Quando descobriram, eu comecei a ver as pessoas procurando. A foto que abre a série é uma mulher levantando o lençol e procurando um parente dela”, disse o jornalista, recordando que usou um drone para realizar uma captura aérea de toda a fila.

Trabalhadores munipais limpando o sangue da Praça São Lucas, no Complexo da Penha (RJ), após a operação policial
Trabalhadores munipais limpando o sangue da Praça São Lucas, no Complexo da Penha (RJ), após a operação policial | Foto: Eduardo Anizelli/Folha de S.Paulo/World Press Photo 2026

Ele foi até o carro para editar os registros e desabou. “Fiquei ali chorando e tentando controlar o nervosismo. Cada despedida ali era um grito de dor diferente, é mãe que reconheceu o filho, mulher que reconheceu o marido, e é a lei da favela, as pessoas tendem a achar que todo mundo que mora lá é bandido. No final do dia, vem o pessoal da prefeitura lavar o asfalto e tirar as marcas de sangue, aí é vida que segue, o tráfico já estava ali de novo, já tinha gente armada passando e o poder público já não estava mais”, lamentou Anizelli.

Começo na Folha de Londrina

O profissional disse que vencer o World Press Photo é sonho de todo fotojornalista, realização que ele almejava desde o início da carreira. “Foram sete anos na Folha de Londrina, depois virei foca de novo na Folha de S.Paulo. São 18 anos aqui, aí a transferência pro Rio há quatro anos, foi uma batalha grande e tem hora ainda que eu nem acredito que consegui. Faria tudo de novo", garantiu.

Anizelli começou na Folha pé-vermelho em 2001, quando tinha 19 anos e ainda estava na graduação. Com a efetivação, vieram mais responsabilidades e oportunidades de realizar coberturas que ele recorda com carinho até hoje. Ele destacou as viagens que fez ao Norte Pioneiro, quando passava dias percorrendo pequenos municípios e caçando pautas. Lembrou da excursão para cobrir a visita do Papa Bento XVI ao Brasil em 2007, em Aparecida, quando teve a oportunidade de fazer uma foto única da autoridade e acabou perdendo o ônibus de volta para Londrina.

Anizelli na época em que estava produzindo o seu Trabalho de Conclusão de Curso sobre a Folha de S.Paulo, ainda trabalhando na Folha de Londrina
Anizelli na época em que estava produzindo o seu Trabalho de Conclusão de Curso sobre a Folha de S.Paulo, ainda trabalhando na Folha de Londrina | Foto: Arquivo pessoal

Também já foi ameaçado de morte quando ficou “de guarda” em uma fazenda produzindo conteúdo, e ainda, sofreu um acidente de carro na estrada voltando de uma pauta, com o carro em que estava caindo em uma ribanceira e sofrendo perda total. Sempre acompanhado nas adversidades, ele e os companheiros de trabalho foram levados ao hospital de ambulância.

Anizelli considera a Folha de Londrina sua “primeira casa e escola”, contando que o trabalho que realizou no jornal, “celeiro de grandes jornalistas”, o impulsionou a chegar onde chegou, reconhecido internacionalmente.

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