Londrina tem cem pontos de venda de cigarro contrabandeado
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domingo, 02 de julho de 2017
Pedro Marconi<br> Reportagem Local 

Em uma volta rápida por Londrina, é comum encontrar pessoas comercializando cigarros contrabandeados do Paraguai em vias públicas. Nas esquinas, canteiros e próximos de rotatórias, os vendedores mantêm um padrão, com uma mesa baixa em que deixam alguns maços expostos. Os principais pontos estão concentrados na zona norte e região central, com os produtos vendidos a preços bem abaixo dos praticados no mercado legal.
Sem se identificar, a reportagem foi até um destes pontos. Aparentando ter mais de 50 anos, o homem comercializava no centro da cidade, junto com os cigarros, DVDs piratas. Questionado sobre o fornecedor da mercadoria, ele afirmou que são vários os responsáveis. Os ganhos também são numerosos. "Eu compro o pacote por R$ 17 e consigo vender por R$ 25. Já o maço do cigarro chego a ganhar entre R$ 0,70 e R$ 0,80, se eu cobrar R$ 3", relatou. O Ministério da Fazenda fixou o preço mínimo para a comercialização de R$ 5 o maço. Os produtos que estiverem fora deste padrão monetário são considerados ilegais.
Percorrendo todas as regiões do município, é possível notar que a grande maioria dos vendedores são homens, sendo uma parte composta por jovens e outra por idosos. Algumas mulheres, porém, são vistas. Os cigarros variam sempre entre quatro marcas, todas do Paraguai, país em que não há fiscalização quanto à qualidade do produto e que serve como ponto de partida de grande parte da carga de contrabando que vem para o Brasil. Outros produtos ainda são comercializados em alguns pontos, como frutas.
Para o diretor da ABCF (Associação Brasileira de Combate à Falsificação), Rodolpho Ramazzin, o fato de Londrina ser uma importante rota de passagem para estados do Centro-Oeste e Sudeste contribui para que os cigarros tenham maior circulação. "Londrina é um entrocamento por onde essas cargas passam, em especial para São Paulo, que é o maior mercado consumidor do País. Isso faz com que parte delas fique na cidade."
A associação mapeou recentemente mais de cem pontos de venda de cigarros contrabandeados na cidade. Somente na avenida Saul Elkind, na zona norte, existe, em média, um vendedor a cada 700 metros. Na área central, os principais locais estão no entorno do Terminal Central e da rua Minas Gerais. A incidência é menor nos bairros da zona oeste e sul, ao contrário da leste, em que é possível encontrar este tipo de venda com mais facilidade. Os distritos rurais também possuem comércio ilegal do produto nas ruas.
FRONTEIRA
Até maio de 2017, a Receita Federal havia destruído cerca de R$ 338 bilhões em cigarros contrabandeados. A origem principal destes produtos está na fronteira de Foz de Iguaçu com o Paraguai que, segundo o especialista, necessita de uma maior fiscalização. "Precisa aumentar o número de agentes na fronteira e nas rodovias, para, no mínimo, um número tolerável. Enquanto isso não for feito, o problema tende a se agravar cada vez mais", pontua.
De acordo com Ramazzin, Londrina necessita de mais ações em conjunto entre as forças policiais e órgãos fiscalizatórios para combater este tipo de problema. "É necessário que existam operações constantes do poder público e não pontuais, até para identificar quem fornece e vende", reforça.
PERDAS E CRIMINALIDADE
Segundo Ramazzin, o setor brasileiro mais penalizado com o contrabando e a falsificação é o do cigarro, que em 2016 deixou de arrecadar R$ 130 bilhões. O governo é prejudicado da mesma forma, pois deixa de recolher impostos. Segundo o Idesf (Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras), se não houvesse contrabando, seria possível arrecadar R$ 2 bilhões ao ano somente com as taxas sobre o tabaco.
Outro problema está na criminalidade. Consulta do Movimento em Defesa do Mercado Legal Brasileiro mostrou que 86% dos moradores do Sul entrevistados veem ligação entre o contrabando de cigarros e o crime organizado. "O contrabando não é só cigarro. Ele envolve quadrilhas do alto crime organizado, que também mexem e distribuem armas e munições. Tudo isso causa um prejuízo muita grande para a sociedade em geral", diz Ramazzin.
Cerco nas fronteiras 'atrai' contrabandistas para a cidade
A PRF (Polícia Rodoviária Federal) realizou em apenas cinco meses de 2017 a apreensão de 1,9 milhão de maços de cigarros nas rodovias federais da região de Londrina. O montante é superior ao recolhido em todo 2016, quando foi 1,1 milhão. Este aumento é apontado pelo inspetor da PRF, Wilson Martinez, como uma das razões para a "explosão" de vendas destes produtos em Londrina.
"Devido aos grandes cercos que a PRF tem feito na região Oeste do Paraná, os contrabandistas estão procurando rotas alternativas e um desses caminhos está na região de Londrina. Com isso, a PRF passou a fiscalizar ainda mais a região Norte. O serviço de inteligência também vem ajudando nestas ações e com isso estamos criando um conhecimento mais detalhado para prender estes indivíduos", afirmou Martinez. Dos veículos utilizados para transportar as cargas ilícitas, as carretas foram os principais meios.
No perímetro urbano de Londrina, a CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização) realizou no início de junho a apreensão de 120 pacotes de cigarros contrabandeados do Paraguai. A fiscalização aconteceu nos bairros da zona leste. não houve a emissão de multas, pois os vendedores não portavam documentos.
A companhia trabalha com foco na venda em áreas públicas com ações que acontecem em parceria com a Guarda Municipal. "Trata-se de um comércio ambulante irregular. Por isso, existe nossa intervenção e temos feito isso com a Guarda Municipal, com o intuito de coibir esse tipo de atividade. Temos recebido diversas reclamações", disse Josiane Correia, coordenadora de fiscalização da CMTU.
Ela informou que existe a previsão de mais operações nas próximas semanas, abrangendo outras regiões. "Temos um levantamento de vários pontos e já possuímos algumas ações pré-agendadas com a guarda, que é quem realiza a primeira abordagem por questões de segurança."
Segundo Nilson Antunes, delegado da PF (Polícia Federal) em Londrina, a instituição fica a cargo do combate às quadrilhas. "A PF tem acompanhando o aumento de comercialização de cigarros nas ruas de Londrina. Estamos focando no combate às grandes quadrilhas que abastecem o mercado local e o Brasil, ficando a comercialização de pequena quantidade em via pública às autoridades locais", declarou. A apreensão destes produtos pela PF na cidade foi de 4,437 milhões de maços até a metade de junho de 2017. O montante é mais que o dobro de todo 2016, quando foram retirados de circulação 1,629 milhão. (P.M.)
Riscos à saúde
Somente em 2015, o Ministério da Saúde contabilizou que o tabagismo foi responsável por 156 mil mortes no Brasil, o que representa 12,6% de todos os óbitos de pessoas com mais de 35 anos. As principais doenças relacionadas ao tabaco, segundo a pasta, são as pulmonares, cardíacas, cancerígenas, acidente vascular cerebral e pneumonia, respectivamente.
Estes males são causadas pelas substâncias tóxicas presentes no cigarro, que são mais de 4.700. No caso dos produtos oriundos do contrabando do Paraguai isto é ainda pior. Estudo desenvolvido por um grupo da UEPG (Universidade Estadual de Ponta Grossa), durante quatro anos, revelou que estes produtos contém pelos de animais, colônias de fungos, restos de insetos e metais altamente tóxicos, como chumbo, cádmio, níquel, cromo e manganês. Todos com níveis até dez vezes maiores do que os brasileiros.
"O chumbo se acumula no corpo ao longo da vida e, quando liberado no organismo pode causar anemia, problemas neurológicos e deficit de atenção em crianças. Já o cádmio pode causar edema pulmonar, fibrose, assim como os outros metais, que também são extremamente tóxicos", alerta o professor Sandro Xavier de Campos, coordenador do grupo de pesquisa em Química Analítica Ambiental e Sanitária da UEPG. (P.M.)


