O garotinho Dener tem um ano e sete meses e mal começou a falar. Mas é parte integrante de um problema que, embora já tenha sido pior, persiste há anos em Londrina: a falta de vagas na educação infantil. Levantamento divulgado ontem pela Secretaria Municipal de Educação apontou que 3.775 crianças de zero a seis anos estão fora das creches públicas ou filantrópicas. O pior é que esta situação acaba gerando outras dificuldades, como por exemplo, a que atinge a empregada doméstica Publimara Passos Ferrer, 27 anos, a mãe do menino. Por ter que levar o filho para o trabalho, ela está em vias de perder o emprego, a única fonte de renda da família formada por quatro pessoas.
  O déficit de vagas na educação infantil gerou ontem uma discussão acalorada entre membros numa reunião extraordinária do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA), Conselhos Tutelares, Promotoria da Vara da Infância e Juventude e Secretaria Municipal de Educação. Primeira a falar, a secretária Carmen Sposti expôs os investimentos feitos até novembro de 2005 para atender 1.092 crianças em 12 creches municipais que chegaram a 5,44 milhões (somando despesas com pessoal). Ela revelou que o ‘‘pente fino’’ feito no segmento apurou um déficit de 3.775 vagas, somando os centros públicos e filantrópicos. Há sete anos, a falta de vagas atingia quase 12 mil crianças. Por outro lado, ela comentou que a situação é tão ‘‘esdrúxula’’ que existem 500 vagas ociosas que estão disponíveis pelos mais diversos motivos.
  Mesmo assim, Sposti admitiu que o modelo atual dificulta a ampliação de vagas, principalmente por causa da reordenação da mão-de-obra. Como os profissionais concursados cumprem turnos de seis horas e as unidades de educação infantil funcionam por 12 horas, cada criança exige dois educadores. ‘‘Estamos buscando alternativas, mas isso não é simples porque temos que mudar o Plano de Carreiras, Cargos e Salários (PCCS)’’, afirmou.
  Complicações também existem, segundo a secretária, para implementação de medidas emergenciais: elas esbarram em questões orçamentárias. Do orçamento municipal de 2005, por exemplo, sobraram mais de R$ 44 milhões mas a utilização de parte disso na educação infantil é impossível porque os R$ 15 milhões destinados para o setor foram gastos. ‘‘A educação infantil é mantida unicamente com recursos próprios do município e não existe superávit’’, argumentou a secretária. Ela disse que a solução passa pela união de forças entre todas as instâncias que assistem a criança e o adolescente.
  O problema é que para a empregada doméstica Plublimara a solução precisa chegar logo. Desempregada e separada do marido, ela cuida do pequeno Dener e de outras duas crianças apenas com o salário mínimo que ganha trabalhando na casa de Rosemara Gonçalves Ferreira, 32 anos, no Conjunto Violin (Zona Norte). ‘‘Se eu não conseguir uma vaga, vou acabar perdendo o emprego porque minha patroa também tem crianças e elas acabam se desentendendo’’, lamentou Publimara. A patroa reluta em tomar tal atitude, ‘‘porque a Mara é de confiança e praticamente já é da família’’, mas disse que isso pode acontecer porque também precisa trabalhar. ‘‘Trabalho o dia inteiro e preciso de uma pessoa em casa. Por enquanto, a gente está se ajudando’’, concluiu.

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