Dois segundos é o tempo que leva para uma mulher ser vítima de violência física ou verbal no País, de acordo com o Relógio da Violência, do Instituto Maria da Penha. Assim, o aniversário da lei que protege mulheres da violência doméstica evidencia que o feminicídio é o ápice de toda uma estrutura de agressões sofridas pela mulher antes, no relacionamento.

Quartas-feiras não costumam ser dias tão movimentados nas Delegacias da Mulher como os primeiros dias consecutivos do fim de semana, quando acontece grande parte das agressões. Mais da metade da violência às mulheres são dentro das quatro paredes do lar, como mostrou o Cadastro Nacional de Violência Doméstica durante seminário do MP (Ministério Público) do Rio de Janeiro em 2017. Foi assim, em casa e pelas mãos do companheiro, que segue a linha de investigação do MP-PR sobre a morte da paranaense Tatiane Spitzer, no dia 22 de julho, em Guarapuava (Centro-sul).

No Paraná, o número de feminicídios em 2018 deve ser o maior em três anos, já que, até o quarto mês deste ano já foi registrado metade do número de feminicídios de todos os doze meses do ano passado, segundo dados da Sesp (Secretaria Estadual de Segurança Pública).

Ameaças, lesões corporais, crimes à honra, foram alguns dos 57 casos(números relativos a junho) registrados pela Patrulha da Lei Maria da Penha em Londrina, acionada por mulheres que possuem medidas protetivas contra seus ex-companheiros.

A Delegacia da Mulher de Londrina registrou dez casos de feminicídio nos últimos três anos. Os números são relativos às mortes com os autores confirmados. Foram três casos em 2015, dois em 2016 e dois no ano passado. Até junho, o município já tinha três casos de feminicídio. No entanto, nem todas agressões à mulher são apuradas pela Delegacia da Mulher. Casos de tentativas e mortes sem a comprovação do autor do crime são atendidos pela Delegacia de Homicídios.

Até junho – mês em que foi aberto mais uma investigação de feminicídio na cidade – foram 48 atendimentos prestados pela Patrulha Maria da Penha a mulheres que não possuem medidas judiciais de proteção, enquanto durante todo o ano de 2017 foram registrados 37 casos.

Os números mostram que as mulheres estão procurando apoio quando se sentem ameaçadas. Hoje, a patrulha é acionada pela discagem do 153. Mas a expectativa para maior agilidade do processo é o conhecido "botão do pânico", o DSP (Dispositivo de Segurança Preventiva), anunciado pelo governo estadual no final de 2017, ano em que o Paraná registrou o maior número de crimes de feminicídio desde 2015, 22 casos confirmados.

Ainda sem funcionamento na cidade devido a trâmites burocráticos travados pelo período eleitoral, o instrumento auxiliará o trabalho da patrulha, conforme afirma a Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres. Mas, a assessoria da pasta alega que as mulheres têm outras opções de auxílio enquanto o dispositivo não é instalado em Londrina. Uma delas é o CAM (Centro de Referência e Atendimento a Mulher).

O CAM presta serviços psicossociais às vítimas de violência. Dados do ano passado mostram que 322 mulheres procuraram diretamente o centro, enquanto 276 casos chegaram por meio de notificações e denúncias feitas pelos serviços da rede municipal, como a Secretaria de Saúde.

Quem passa por situações de agressão, seja física ou psicológica, pode entrar em contato com o CAM pelo telefone 3378-0132. A prefeitura estima que desde a criação do serviço, em 1993, mais de mil mulheres tiveram atendimento. O centro atende em dias úteis das 8h às 17h e fica na rua Máximo Perez Garcia, 340, jardim Belo Horizonte.

Nos primeiros seis meses deste ano, 156 mulheres procuraram o serviço e 138 foram encaminhadas pela rede. Neste último caso, o CAM busca as vítimas a partir das informações dos serviços, mas nem sempre todas desejam o apoio, como explica a secretária administrativa da Secretaria das Mulheres, Elaine Galvão.

"Cada caso é um caso, mas muitas têm medo de que a situação se agrave caso procure o serviço, ou às vezes por receio de prejudicar o pai dos filhos", pondera, embora não haja dados efetivos sobre mulheres que recusam os atendimentos do centro. "No CAM ela [a mulher] é orientada sobre como lidar com a situação e é feita uma avaliação de risco", explica.

Se o risco for de morte, elas são encaminhadas para a Casa Abrigo, que é um espaço de defesa das mulheres vítimas de violência doméstica e sexual. Não só para as mulheres, mas também para seus dependentes. No ano passado, o local recebeu 59 mulheres e 83 crianças e adolescentes. Em 2016, foram 50 mulheres e 81 dependentes.

Também sustentada pela prefeitura, o endereço da Casa Abrigo é mantido em sigilo por questões de segurança.

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