Enquanto a produção de leite cresce no Brasil e atrai mais gente para a atividade, Londrina vive um momento delicado no setor. Nos últimos cinco anos, o número de produtores caiu drasticamente na região. A estimativa é que cerca de 2 mil deixaram a atividade nesse meio tempo. Hoje, as duas maiores indústrias processadoras da cidade, a Confepar e Cativa, são obrigadas a "importar" o produto de outras regiões do Paraná e até de outros estados para manter a produção suficiente para atender o mercado de laticínios.

Segundo o presidente da Cativa, Paulo César Pelisser Maciel, o consumo está aquecido e absorvendo toda a produção da cooperativa. Porém, está cada vez mais difícil conseguir contratar produtores para fornecimento. De acordo com ele, pelo menos três motivos levaram a essa situação: o avanço da soja na região, a falta de mão de obra qualificada e o custo da produção. "A soja rende mais e custa menos para produzir. Não se encontra pessoas especializadas para trabalhar com o leite, que é uma área que exige treinamento e dedicação, tipo acordar de madrugada e sem feriados ou finais de semana", diz. Segundo ele, 2012 foi um ano péssimo para o produtor de leite, com a elevação do preço das commodities como soja e milho. "A alimentação dos animais ficou cara. E sem ração boa, o gado não dá leite", aponta. Hoje, a Cativa trabalha com cerca 530 produtores da região cadastrados, entregando o leite na cooperativa. "Se não buscarmos em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, não temos matéria prima para trabalhar."

De acordo com o supervisor de qualidade de matéria prima da Confepar, Bruno Garcia Botaro, só a cooperativa perdeu 63% dos produtores cadastrados nos últimos cinco anos. "Eram cerca de 2,8 mil e hoje estamos com 1.024." Segundo ele, muitos podem ter migrado para outras empresas, mas a maioria, acredita, desistiu mesmo da atividade. Isso reduziu drasticamente a produção da cooperativa. "Temos uma estrutura enorme para produção que está com uma grande taxa de ociosidade." A cooperativa tem capacidade para produzir 1,2 milhão de litros/dia, mas segundo ele, processa atualmente 600 mil litros/dia. "Desses, 60% da matéria prima não vêm da região. Temos que completar com leite do Norte Pioneiro, Pato Branco e Mato Grosso do Sul."

De acordo com a professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e responsável pelo Centro Mesoregional de Excelência em Tecnologia do Leite do Norte Central, Vanerli Beloti, o número de produtores caiu, mas a produção cresceu. "Acho que a gente está passando por um processo de especialização. Há cinco anos, a média de produção era de 70 litros/dia. Hoje, são em média 200 litros/dia por produtor." De acordo com ela, podem ter saído do setor dois tipos de produtores: os muito bons, que ficaram desestimulados por falta de pagamento pela qualidade, e os muito pequenos. "Esses podem ter se sentido pressionados porque têm havido alterações na legislação na questão de controle de qualidade e eles não têm como cumprir o que está sendo exigido."

Na contramão

Valdeir Martins, 50 anos, é o único produtor rural de Londrina a produzir o leite tipo A no município. A marca De Leite está em cerca de 50 pontos de venda da cidade, com 1,1 mil litros/dia. Ele diz estar satisfeito com a atividade. "Só não entrego mais porque não tenho produção. Precisaria de mais vacas e não tenho mais espaço no sítio", diz. Martins diz que está nos planos comprar uma propriedade maior, mas terá que ser em outro local já que as terras no Patrimônio Heimtal estão muito caras. "Estamos pensando e nos preparando."

Martins, que é engenheiro elétrico e trabalhava no ramo de panificação com a família, começou a produzir leite tipo A há 19 anos, depois que ele e o irmão compraram o sítio. "A princípio era para lazer, mas aí tínhamos umas vaquinhas, comecei a me interessar pela criação, fui fazer curso de inseminação artificial e conheci as miniusinas para pasteurização de leite. Acabei gostando do assunto e resolvi me dedicar."

Hoje, ele tem uma média de 70 vacas em lactação e faz ordenha mecanizada duas vezes por dia. "A partir do momento em que o leite sai da vaca na ordenha, ninguém mais toca no leite. Ele vai direto para a usina e só sai de lá embalado", conta. A capacidade da usina que Martins tem no sítio é de 20 mil litros/dia. "Mas fica ociosa a maior parte do tempo. Não posso nem receber leite de outros para processar porque não seria o tipo A", conta.

O custo de produção mais caro do leite, no entanto, não o preocupa. "Para o consumidor final, um litro de leite tipo A sai mais barato que uma lata de refrigerante. E os filhos pequenos não merecem receber produtos de melhor qualidade e mais saudáveis?", questiona.

Praticidade, mas não qualidade

Segundo Vanerli Beloti, cerca de 80% do consumo de leite no Brasil é longa vida, o chamado UHT (ultra alta temperatura). "Com a extinção do leite tipo B, há alguns anos, ficamos com três tipos no mercado. O UHT, o pasteurizado e o tipo A. Este deve ser processado e pasteurizado dentro da própria fazenda produtiva, sem contato manual, e sair de lá embalado e pronto para o consumo. O pasteurizado comum sai da fazenda para ser processado na indústria", explica.

Vanerli diz que, em termos de qualidade nutricional, o A é o melhor. O pasteurizado é aceitável e o UHT – ou longa vida – é o pior de todos, mesmo sem misturas perigosas como foi divulgado na semana passada, em casos do leite gaúcho adulterado com ureia. "Para fazer esse tipo, qualquer leite serve. No caso do leite pasteurizado, como é um leite que tem que ser refrigerado, que tem bactérias vivas – embora não patogênicas, as chamadas bactérias boas -, ele precisa ser selecionado entre os melhores, os mais frescos. E o leite UHT não tem essa exigência. Como vai ser tratado com alta temperatura, vai matar todas as bactérias, tanto faz se tinha muito ou pouco e até qual a origem desse leite. Não importa nem se tinha coliformes fecais", explica.

Segundo a professora, esse tipo de leite só ganhou mercado no Brasil por conta da praticidade. "Mas é um dos poucos países do mundo em que acontece isso. Os Estados Unidos e Europa só consomem leite pasteurizado. Eles produzem com uma qualidade que o leite dura 20 dias. Em parte supre esse conforto da ‘caixinha’. Só não dispensa refrigeração."

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