Londrina perde posições em ranking de saneamento básico
Relatório analisa a qualidade do tratamento de água e esgoto do País
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de julho de 2019
Relatório analisa a qualidade do tratamento de água e esgoto do País
Isabela Fleischmann e Vitor Struck 
A cidade de Londrina perdeu duas posições na listagem das 100 maiores cidades brasileiras com melhor saneamento básico: está em 15º. Os dados são do novo relatório do Instituto Trata Brasil, organização que analisa a qualidade do tratamento de água e esgoto do País, divulgado nesta terça-feira (23). Maringá – que subiu um degrau do ranking e figura em 4º - e Londrina estão entre as cidades com os melhores índices: com tratamentos praticamente universalizados. A comparação é entre os levantamentos de 2018 e 2019.

Maringá e Londrina também estão entre as cidades em que a população tem maior acesso à rede de coleta de esgoto: 99,98%. O estudo do Trata Brasil é feito com base nos dados do Ministério de Desenvolvimento Regional e do SNI (Sistema Nacional de Informações) sobre o saneamento. Áreas irregulares, como a ocupação do Flores do Campo, na zona norte de Londrina, que não tem rede de saneamento, portanto, não estão contempladas. O SNI tem dois anos de defasagem nos dados - os números do relatório são de 2017.

Segundo a Sanepar, nisso se encontra o fator decisivo para a cidade não estar entre as cinco primeiras na listagem de saneamento: as perdas de distribuição. O indicador se baseia nos vazamentos, roubos, furtos, “gatos” e erros de leitura de hidrômetro de água potável em 2017. Dos 100 municípios, apenas um possui perdas menores que 15%, valor considerado ótimo, Santos, no litoral de São Paulo. Mais de 80% das 100 cidades têm perdas superiores a 30%, como é o caso de Londrina, com 34,78%. Maringá está 22,5% de perdas.
Segundo Rafael Malaguido, gerente geral da Sanepar em Londrina, a diferença na classificação de Maringá e de Londrina está no fato de que a última é um “caso à parte”, por conta das ocupações. As perdas de distribuição em Londrina estão ligadas diretamente aos aglomerados irregulares, ligações clandestinas e submedição dos hidrômetros. “Em Londrina temos dados de 86 ocupações irregulares e por isso não conseguimos atuar”, explicou.
No Flores do Campo, há uma ligação comunitária de água na entrada do empreendimento que fornece o abastecimento para a região, de acordo com Malaguido. “Desde que assumimos a gerência geral começamos a resolver planos de ações dentro do município para ter um maior controle de loteamentos irregulares.”
O gerente afirma que a empresa está trabalhando neste ano em 22 áreas de ocupação para diminuir o volume de perdas. “Deslocamos colaboradores para um maior controle operacional do índice de perdas”, disse.
O Paraná tem cinco cidades entre as 20 melhores ranqueadas, Maringá (4º), Cascavel (6º), Curitiba (12º), Londrina (15º) e Ponta Grossa (17º). “A Sanepar tem uma gestão eficiente de seus investimentos, cada real investido é estudado e planejado, o corpo técnico é altamente qualificado e há ordens de investimento em todo o Estado, buscando ampliar as redes até chegar aos municípios menores.”
Questionado, o pesquisador da Trata Brasil, Pedro Scazufca, avaliou que as ligações irregulares afetam na perda de água em alguns municípios. No entanto, ainda assim, Londrina e os outros quatro municípios paranaenses que figuram entre os 20 melhores são tratados como cases de sucesso. “Só para termos uma comparação, em relação ao atendimento em água, enquanto o Brasil é 83%, a média das 20 melhores é 99%. O atendimento no esgoto, enquanto o Brasil está em 52%, as 20 melhores estão em 97%, e em relação ao tratamento, enquanto o Brasil tem 46%, as 20 melhores estão em 89%”, comparou.
BRASIL
São Paulo e Paraná são os Estados que têm municípios em melhores condições de saneamento. O cenário é díspar do que é visto em todo o Brasil. Segundo o relatório, a matemática explica. As cidades com melhor saneamento básico investiram, em cinco anos, quatro vezes mais do que os municípios nas últimas posições.
O Trata Brasil alerta que quase 35 milhões de pessoas não têm acesso à água tratada e quase 100 milhões de brasileiros ainda estão sem coleta de esgoto, o que equivale a quase metade da população (47,6%). Ainda que o acesso à rede de tratamento de esgoto tenha melhorado de 2011 para 2016, de 35% para 46%, a maioria das cidades ainda não tem tratamento adequado. O instituto considera que os avanços “são pouco relevantes”, já que as metas de saneamento básico oficializadas pelo Brasil com a ONU (Organização das Nações Unidas) são para que o saneamento esteja universalizado até 2030.
Bons indicadores de tratamento de esgoto são os rios. Quando límpidos, é um sinal favorável. Entretanto, em 2017, os córregos, rios e lagos do País tiveram o equivalente a 5.622 piscinas olímpicas – de 5.130.047 m³ – de esgoto não tratado despejado, conforme aponta o estudo.
Entre as mudanças de um relatório para o outro vale destacar cidades que subiram 15 posições, como Aparecida de Goiânia (GO), Caruaru (PE) e São José dos Pinhais (Região Metropolitana de Curitiba). Rio de Janeiro, Palmas, Manaus e Rio Branco foram as capitais que aumentaram o fornecimento de água de um relatório para outro; Belo Horizonte, Fortaleza, Salvador e São Luís reduziram.
De acordo com o estudo, o investimento no saneamento básico no Brasil caiu pelo terceiro ano seguido. Em 2016, era de R$ 11,51 bilhões e em 2017, R$ 10,9 bilhões: uma queda de 5%. O investimento de 2017 foi o mesmo que o de 2011. Os valores foram atualizados pelos preços de 2017 do IPCA.
O presidente do Instituto Trata Brasil ressalta que mais de 50% dos investimentos estão concentrados em apenas 100 cidades. “Ainda que nelas viva mais de 40% da população, é preocupante pensar que mais de 5.600 municípios, juntos, são responsáveis por menos de 50% do valor investido em saneamento básico. Isso explica por que as cidades médias e menores em geral carecem desta infraestrutura”, afirmou.
Em nota, o MDR (Ministério do Desenvolvimento Regional) disse que para atingir a meta de curto prazo do Plansab (Plano Nacional de Saneamento Básico) de 2019 até 2023 são necessários investimentos de aproximadamente R$ 22,4 bilhões ao ano. “No entanto, o orçamento inicial previsto para 2019 era de R$ 4 bilhões - referentes ao FGTS, mas a expectativa é que chegue a R$ 6 bilhões até o final do ano”, afirma a pasta.
De acordo Scazufca, se o mesmos níveis de investimentos forem mantidos, o País não alcançará a universalização em 2030. “A nossa estimativa é que se atrase, pelo menos, em 20 anos a nossa universalização, então o que estava previsto para 2033 vai acontecer só depois de 2050”, lamentou. Sobre as prioridades, Scazufca elencou três frentes: planejamento dos municípios, atualização da legislação e melhorias na gestão das concessionárias de modo a reduzir as perdas de água. “Primeiro lugar: melhor planejamento do setor por parte do poder concedente, que são os municípios. Uma boa regulação, e aí temos uma agenda nesta parte regulatória para votação e aprovação para alterar o Marco Regulatório do Saneamento e com isso você ter maior segurança jurídica para investimentos e melhoria na gestão feita pelas concessionárias”, avaliou.


