Londrina na bola da vez
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sábado, 07 de julho de 2012
Micaela Orikasa <br> Reportagem Local 
Londrina - Imagine um campeonato de sinuca. Diversas mesas dispostas lado a lado, jogadores concentrados e, é claro, tudo isso acontecendo em um bar. Mas não se engane. O cenário não é de boteco. Ao redor da mesa, não são os ''botequeiros'' que apostam as melhores tacadas, mas profissionais que treinam rigorosamente, durante horas e chegam a desembolsar mais de R$ 2 mil em um taco.
Para quem não acredita, vale a pena conferir os campeonatos de sinuca que acontecem em todo o país. Entre as competições está o Circuito Individual Paranaense, realizado ontem em Londrina, em um tradicional bar de mesas profissionais. Isso quer dizer que quem frequenta o local encara o jogo com seriedade.
''O mais importante é ter uma boa percepção do jogo e pulso firme; e o fundamental é ter concentração. É por isso que eu treino duas vezes por semana, durante quatro horas'', revela o curitibano Rodrigo Gentil Prestes, de 19 anos, campeão brasileiro na categoria sub-21.
A pouca idade é até estranho para um esporte que geralmente é praticado por pessoas mais velhas. ''Mas isso só acontece em Londrina. Em outras cidades, muitos jovens são adeptos da sinuca de regra inglesa (profissional)'', comenta Cléber Luciano Gomes, 30, considerado o melhor jogador de Londrina.
Para ganhar esse título, Cléber dedicou metade de sua idade aos jogos e competições. ''Eu acompanhava meu pai nos clubes e comecei brincando. Com o tempo, passei a levar a brincadeira a sério e hoje treino 20 horas semanais'', diz o sinuquista, que só não tem a aprovação da esposa durante as sextas-feiras. ''Porque daí eu esqueço do horário e vou longe, jogando até tarde'', brinca.
Traje social
Mas ao contrário do que se pensa, a descontração não faz parte do jogo. Quando todas as bolas estão dispostas à mesa, a calma e a concentração devem dar lugar às conversas e brincadeiras. O silêncio paira e os competidores mal trocam palavras.
Outro detalhe curioso, além de todos os jogadores terem sua ''maleta'' para transportar o taco de sinuca e acessórios, é a vestimenta. ''Tem que vestir traje social. Calça preta, camisa de manga comprida branca ou preta e sapato preto. A partir do ano que vem, a regra também vai incluir o colete'', explica Julio Cesar Maus, presidente da Federação Paranaense de Sinuca.
Um dos sinuquistas mais antigos do Circuito é o farmacêutico Carlos Canuto Gouveia, 76 anos, de Londrina. Ele começou a brincar aos 12 anos quando, junto com amigos, criou a própria mesa. ''Fizemos também os tacos e as bolinhas. Usávamos a de gude, pois a mesa era bem pequena'', lembra. Os anos se passaram e Gouveia nunca deixou de praticar. ''Sinuca é distração e, por isso, minha esposa não se importa. Pelo contrário, muitas vezes ela me acompanha'', diz.
Estimulante
Boa resposta para quem pensa que o esporte é coisa de homem. Quem estava lá para provar é a professora Cláudia Zardo Cordeiro, de 37 anos, única competidora. Ela veio de Curitiba na companhia do marido André Luis, que também é competidor. ''Quando era pequena, gostava de 'bater bolinha'. O tempo foi passando e eu frequentando bares de sinuca. Só parei quando engravidei. Fiquei cinco anos sem jogar, mas em 2008 resolvi voltar para competir'', conta Cláudia, que chega a viajar para outros estados, em busca da tacada perfeita.
''Acho um jogo estimulante, onde é preciso fazer cálculos. Além disso, tem o benefício físico, pois você precisa de um bom alongamento e boa condição física'', comenta. Um jogador de sinuca chega a andar três quilômetros em volta da mesa em um jogo com duração de uma hora.
É claro que Cláudia enfrenta preconceito, mas com o espírito competidor que tem, encara o desafio com bom humor. ''Os homens ficam nervosos de jogar com mulher, pois eles não admitem perder para nós. Chega a ser engraçado, mas é a pura verdade'', diz a jogadora, orgulhosa em contar que a filha de 9 anos já se interessa por sinuca. E, ao contrário do que possa parecer, seu sonho de consumo não é o trófeu, mas sim uma mesa de sinuca. ''Seria muito bacana ter uma em casa'', revela.


