''Londrina Connection''
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 08 de março de 1999
Percival de Souza Especial para a Folha 
Os traficantes nigerianos estão trocando São Paulo por Salvador, a rota tradicional do Cartel de Cáli passa por mudanças e o mundo da cocaína vive regras diferenciadas neste começo de ano. O eixo Colômbia-Brasil, desta vez via Paraná e com escala em Roraima, mostra a atenção que o Brasil precisa dedicar às conexões internacionais, que no caso de Londrina tinham a Espanha como destino principal.
O secretário Nacional Anti-Drogas, juiz Walter Maierovitch, informou à Folha ontem em Brasília, que o esquema de repressão ao tráfico no Brasil está prestes a passar por grandes transformações. A expectativa na Polícia Federal, que desencadeou a operação Londrina com pleno êxito, era a definição do substituto do delegado Vicente Chelotti. Duas mulheres, por coincidência no Dia Internacional da Mulher, também se habilitavam para o cargo. A Secretaria Anti-Drogas, criada no ano passado por FHC, nasceu em função de um compromisso assumido pelo Brasil em reunião na Organização das Nações Unidas (ONU), onde se estabeleceu um plano de evolução gradativa, e com dez anos de prazo para a obtenção dos bons resultados esperados. A sede da ONU fica em Nova York, mesma cidade onde está o comando da DEA, a poderosa agência norte-americana de combate às drogas, que possui agentes em mais de 50 países e uma verba anual aprovada pelo Congresso só para comprar informações.
Os mais de 300 quilos apreendidos em Londrina evidenciam, mais uma vez, que o tráfico não possui fronteiras. É transnacional, diz o secretário Maierovitch, empenhado na aprovação, pelo Congresso, de um projeto que permita ao Brasil abater aviões de traficantes que invadam espaço aéreo de fronteiras, como a da Colômbia, e fortaleçam com estrutura adequada o combate a pontos críticos como a região de Tabatinga, na Amazônia.
Outro significado da operação de Londrina vem através da informação fornecida por Antonio Carlos Videira, agente do Departamento de Operações de Fronteira (DOF), no Mato Grosso do Sul: a variação cambial, desvalorizando o real pela metade em relação ao dólar, levou os traficantes de cocaína a terem preferência por negócios internacionais. Os mercadores brasileiros do vício estão em crise econômica.


