Londres suspende governo da Irlanda do Norte
Belfast, 11 (AE-AP) - Em uma derradeira tentativa para salvar o processo de paz, a Grã-Bretanha suspendeu nesta sexta-feira (11) o governo autônomo da Irlanda do Norte (integrado por católicos e protestantes), chefiado pelo líder protestantes David Trimble.
O secretário britânico para a Irlanda do Norte, Peter Mandelson, disse que não lhe restou outra opção, diante da "intransigência" do Exército Republicano Irlandês (IRA) em não depôr armas.
Horas depois, os governos britânico e irlandês anunciaram que o IRA havia suavizado sua posição, o que representava "um progresso de significância real" e poderia resultar no cancelamento da suspensão.
A decisão tomada por Mandelson, que consta do acordo de paz firmado em abril de 1998, pôs fim a 72 dias de uma experiência administrativa no território. A transferência de poder de Belfast para Londres ocorreu à meia-noite local.
"Isso era inevitável", reagiu o protestante Trimble, primeiro-ministro norte-irlandês e líder do Partido Unionista do Ulster (UUP) - a maior agremiação política do território.
Prêmio Nobel da Paz, o líder protestante reafirmou que não poderia seguir à frente de um gabinete integrado pelo católico Sinn Fein "vinculado a um grupo terrorista (referência ao IRA) que não dá sinais de evolução". E acrescentou: "Não podíamos mais correr riscos."
O acordo de paz estabelece 20 de maio como data-limite para o desarmamento dos grupos paramilitares, omitindo, no entanto, o início do processo. Trimble, quando aceitou em novembro formar um governo, havia estabelecido 31 de janeiro para o começo da desmobilização. Vencido o prazo, o IRA, apesar de enviar um representante à comissão independente de desarmamento, não deu nenhum sinal de que estaria disposto a acatar a exigência do chefe do governo autônomo. Ao contrário, Gerry Adams, líder do Sinn Fein (braço político do IRA com representação no gabinete norte-irlandês) acusou Trimble de violar os acordos da Sexta-Feira Santa com suas "imposições".
As pressões sobre Adams e o IRA intensificaram-se nas duas últimas semanas. Os primeiros-ministros da Grã-Bretanha, Tony Blair, e da República da Irlanda, Bertie Ahern, reuniram-se em várias ocasiões, para evitar a renúncia de Trimble. Mantiveram também encontros em separado com Adams.
Blair chegou a pedir ajuda ao presidente norte-americano Bill Clinton, que imediatamente entrou em contato, por telefone, com Adams. Este, em todas as ocasiões, deu a entender que não dispunha de meios para forçar o grupo armado a aderir ao processo na forma exigida.
Hoje, pouco antes da decretação da suspensão do governo autônomo, Adams anunciou ter obtido uma proposta do IRA para resolver a crise e evitar o congelamento das instituições norte-irlandesas. "O essencial dessa nova proposta é que o IRA (e não as lideranças protestantes) definirá o contexto do desarmamento", destacou. Mas Londres não compartilhou do entusiasmo do líder católico.
Com a suspensão temporária do governo autônomo, as autoridades britânicas evitaram a renúncia de Trimble e seus ministros protestantes - o que levaria a novas eleições gerais e a um eventual bloqueio de radicais protestantes à formação de um novo gabinete.
Contudo, o UUP - que defende os vínculos políticos do território com a Grã-Bretanha - marcou uma reunião para hoje, quando deverá decidir se mantém ou não seus cargos no gabinete de 12 ministérios. Pelas normas vigentes, o governo não poderá se sustentar sem os representanes do UUP.





