Lobos e ursos voltam a aterrorizar a Europa Do correspondente GILLES LAPOUGE
Paris, 13 (AE) - A política francesa está vazia e sem novidades: como acontece todos os anos neste tórrido mês de agosto, seu encefalograma é plano, sem variações . Com certeza o "eclipse solar do milênio"(no último dia 11 de agosto) permitiu que os jornais despejassem sobre nós, até à saciedade, mapas do céu, do sol e dos planetas. Mas, e depois?
Depois, por acaso, vieram os ursos e os lobos. Essas feras, que constituiam o pavor dos séculos tenebrosos, foram exterminadas no final do século 19. Mas os ecologistas acham que as florestas e as montanhas eram bem mais belas, bem mais naturais e mais românticas quando abrigavam esses animais lendários. E, há uns dez anos, o Ministério do Meio Ambiente reintroduziu os lobos e os ursos (importados da Europa Oriental) nas montanhas: nos Pirineus, ao Sul (junto à fronteira espanhola) e nos Alpes, a Leste (junto à fronteira italiana).
No princípio, todos estavam encantados. As feras davam aos campos um perfume de selvageria, de pré-história e de mitologia. Mas alguns desaprovavam: os pastores. Hoje, os criadores de rebanhos estão declarando guerra aos lobos, os ursos e "esses senhores de Paris" que os sustentam.
Podemos compreender os pastores. No verão, eles conduzem seus cordeiros para os "alpages" (as altas montanhas). E os ursos e os lobos ficam encantados: passam seu verão correndo atrás dos cordeiros, degolando-os, devorando-os. Com certeza, é assim que os lobos faziam nos "contos de fadas". Mas, os pastores não apreciam absolutamente esses contos de fada.
E por isso protestam, fazem manifestações, desfilam nas cidades com seus rebanhos. Ameaçam abandonar seu trabalho, não mais criar cordeiros. Esta é uma perspectiva grave: efetivamente, os lobos e os ursos foram introduzidos a fim de revivificar a Natureza, o meio ambiente, etc... Ora, se os pastores desertarem das montanhas, elas morrerão.
Os estragos são impressionantes: nos Alpes, os lobos degolam mais de 100 cordeiros por ano. E não é tudo: as ovelhas, os cordeiros têm medo deles. Quando sente o cheiro do lobo, o rebanho entra em pânico e se dispersa diante dele de forma impetuosa. Desta forma, rebanhos inteiros se precipirataram cegamente nos abismos.
Os ursos fazem também devastações. Neste ano, eles destruíram 69 ovelhas. Nem todos os ursos são sanguinários: descobriu-se que apenas dois ursos são os responsáveis por estas matanças. São dois ursos jovens, que nasceram há dois anos e cujos pais foram mortos por camponeses revoltados. Os dois ursinhos foram muito infelizes. Ganharam um caráter muito mau e os cordeiros são as infortunadas vítimas de seus traumas de infância.
Os poderees públicos não querem interromper a experiência. Dizem que, com o tempo, as feras se acalmarão. Até que isso aconteça, algumas medidas de proteção estão sendo tentadas.
Mas estas medidas de proteção são difíceis: recolher os cordeiros todas as tardes nos estábulos seria trabalhoso para os pastores. Cercar as pastagens dos cordeiros com "arame farpado" seria oneroso nessas regiões de altas montanhas.
Nos Alpes, os pastores podem recorrer a cães terríveis, conhecidos como "chiens patous" (cada um deles custa 10 mil francos franceses). Mas esses cães são treinados para saltar sobre quem quer que ameaçar o seu rebanho. Não fazem diferença entre um lobo e um colhedor de cogumelos.
Os "turistas" começam a desertar das zonas onde domina o "chien patou".
(Contudo, esse cão não ataca seres humanos. Ele os cerca e impede de se mexerem enquanto o rebanho estiver ali. Algumas pessoas que passeavam pela montanha foram aterrorizadas por esses cães e obrigadas a ficar encurraladas e imóveis durante 24 horas).
Para cúmulo da desgraça, os pastores afirmam que estes "chiens patous", que deveriam proteger os homens e atacar os lobos, são "inúteis". Fazem tudo às avessas: atacam os homens mas, quando percebem um lobo, fogem às pressas e se escondem.





