Cleide Cavalcante
Agência Estado
Uma pesquisa realizada pela Internet, pelo site Edge (www.edge.org), elegeu as principais descobertas dos dois últimos milênios e se transformou em livro: ‘‘As Maiores Invenções dos Últimos 2000 Anos. Do Papel à Internet - As Conquistas Que Mudaram a História do Homem’’ (Editora Objetiva). Entre os inventos eleitos, estão a pílula anticoncepcional, a música clássica, a anestesia, as redes de computadores e a televisão.
A idéia foi de John Brockman, autor de 19 livros, fundador da agência literária Brockman, Inc. e criador do Edge. O lema do Edge é chegar ao limite (edge) do conhecimento mundial, buscar as mentes mais complexas e sofisticadas, reuni-las numa sala e mandá-las fazer umas às outras as perguntas que fazem a si mesmas, salienta Brockman. Para isso, o escritor elaborou uma seleta lista de e-mails, de membros da chamada ‘‘terceira cultura’’.
‘‘As idéias apresentadas no Edge muitas vezes são altamente especulativas, representam a fronteira do conhecimento em áreas como biologia evolucionária, genética, informática, neurofisiologia, psicologia e física. Algumas das perguntas foram: de onde veio o universo? De onde veio a vida? De onde veio a mente?’, destaca Brockman, que completa: ‘‘Da terceira cultura, nasceu uma nova filosofia natural, com base em reconcepções de complexidade e evolução. Surgiu um novo conjunto de metáforas para descrever a nós, nossas mentes, o universo e tudo que nele conhecemos; são os intelectuais preocupados com essas novas idéias e imagens – cientistas que escrevem livros sobre seu trabalho – que impulsionam nossa era.’
Em 1998, Brockman decidiu ampliar o leque de discussões enviando a estas personalidades renomadas participantes do Edge um questionário com as seguintes questões: ‘‘Qual é a mais importante invenção dos últimos dois mil anos?’ e ‘‘Por quê?’. As respostas não demoraram a chegar e a idéia deu tão certo que logo virou um livro. O escritor selecionou aproximadamente 100 delas.
A eleição das invenções dos últimos dois mil anos teve início com o próprio Brockman. Para ele, a coisa mais importante foi a criação da Rede de Inteligência Distribuída (RID). ‘‘A RID é a mente coletiva, externalizada – a mente que todos partilhamos, a infinita oscilação de nossa consciência coletiva interagindo consigo mesma, tomando consciência de si, acrescentando uma dimensão mais plena, mais rica, ao que significa ser humano’’, diz.
Para Brian C. Goodwin, professor de biologia no Schumacher College, na Inglaterra, e autor de vários livros, a mais importante invenção foi a imprensa. ‘‘Quando William Caxton publicou The Canterbury Tales (Contos da Cantuária), no século 15, em sua máquina recém-inventada, acelerou de forma sensacional a separação entre a cultura humana e a natureza, eclipsando a experiência direta dos processos naturais que continuam na tradição oral e substituindo-os por palavras numa página’’, declara. Randolph Nesse, professor de psiquiatria e médico, também deu o mesmo voto. ‘‘Parece-me que a imprensa mudou mais o mundo que qualquer outra invenção nos últimos dois mil anos’’, acredita.
Já Rodney Brookes, cientista de computação e diretor do laboratório de Inteligência Artificial do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), preferiu dar seu voto ao motor elétrico. E Tom Standage, correspondente da editoria de ciência de The Economist, a tecnologia das telecomunicações - o telégrafo, o telefone e a Internet. ‘‘Até cerca de 150 anos atrás, era impossível comunicar-nos com alguém em tempo real, a não ser que a pessoa estivesse na mesma sala. A única opção era enviar uma mensagem (ou irmos nós mesmos) por meio de cavalo ou navio’’, lembra. A Internet também foi eleita por Roger C. Schank, cientista de computação e psicólogo cognitivo. Colin Tudge, pesquisador do Centro de Filosofia da London School of Economics, discorda. Segundo ele, foi o arado que mudou o mundo.
Professor da cadeira Mills de Filosofia da mente na Universidade da Califórnia, em Berkeley, John R. Searle ressalta o conjunto de técnicas agrícolas conhecido com a revolução verde. ‘‘Essa invenção começou na década de 60 e continua na de 90 - na verdade, transforma-se agora numa coisa que bem pode ser chamada de revolução verde-azul, ao estender novas técnicas agrícolas aos oceanos’’, frisa.
Susan Blackmore, professora de psicologia na Universidade do Oeste da Inglaterra, em Bristol, votou na pílula anticoncepcional. A pílula anticoncepcional, confirma Maria Lepowsky, é revolucionária por dois motivos. ‘‘Primeiro, porque representa um tremendo salto na eficiência das tentativas de controlar a fertilidade humana. A pílula e os artefatos posteriores pressagiam uma revolução na vida das mulheres, da puberdade à menopausa, em toda parte do mundo, possibilitando a metade da população controlar suas vidas adultas pelo controle de sua fertilidade’’, acredita.
Além disso, completa a professora de antropologia, as pílulas podem salvar o planeta Terra da tragédia em andamento da superpovoação humana, com suas atuais e futuras consequências globais sinistras de pobreza em massa, pandemias, guerra, confrontos violentos por recursos escassos, degradação ambiental e extinção generalizada de espécies.
A eleição também denominou como ‘‘as mais importantes invenções dos últimos dois mil anos’’ a caravela, o sino, a orquestra sinfônica, o ceticismo filosófico, o ecossistema digital, a destilação, o calendário protestante inglês de 33 anos, o conceito de educação, a bateria, a descrença no sobrenatural, a geometria, os jogos de tabuleiro, a cidade, a idéia da idéia, o ego humano, o espelho, a universidade, as lentes a bomba atômica, a representação matemática e até a garrafa térmica, entre outras.
Entretanto, para Eberhard Zangger e Henry Warwick não houve nenhuma criação tão espetacular que merecesse seus votos.Intelectuais elegem as maiores invenções dos últimos dois mil anos
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