Livro revela dificuldades dos filhos de dekasseguis
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de junho de 2000
Silvana Leão De Londrina 
Há 92 anos, atravaca no Porto de Santos, no Estado de São Paulo, o Kasato Maru, primeiro navio japonês a trazer imigrantes para o Brasil. Começava ali, no dia 18 de junho de 1908, a saga dos japoneses que fugiam da crise econômica da terra natal. A fortuna desejada nem sempre veio facilmente, mas a maioria resistiu às inúmeras dificuldades e nunca mais voltou ao Japão. Fenômeno parecido acontece agora só que de maneira inversa com os dekasseguis que se aventuram nas extensas jornadas de trabalho do outro lado do mundo.
A emigração de agora também apresenta outra grande diferença da imigração do passado: desta vez o fenômeno tem como característica a ida de muitos pais que deixam no Brasil filhos ainda pequenos, aos cuidados de parentes e até mesmo de pessoas conhecidas. Estas crianças enfrentam precocemente a saudade, a ausência do afeto dos pais e todos os problemas que não ter pai e mãe por perto podem gerar.
Poucas pessoas têm parado para analisar como estes órfãos de pais vivos passaram a viver e as repercussões do fenômeno em seus desenvolvimentos cognitivo e emocional. Um pediatra londrinense encarou o desafio e lançará na próxima quinta-feira, como parte da programação da 40ª Exposição Agrícola de Londrina, o livro Fenômeno Dekassegui: um olhar sobre os adolescentes que ficaram. Renato Mikio Moriya, que também é hebeatra (especialista em adolescentes), conta que a idéia de estudar o assunto surgiu no próprio consultório, onde observava, com inquietação, o comportamento de adolescentes que se encontravam nesta situação.
A obra é resultado de pesquisa feita para a monografia do curso de especialização em adolescência que Moriya concluiu no primeiro semestre de 99, e cuja tese defendeu em setembro pela Pontifícia Universidade Católica (PUC), eM Curitiba. Para trabalhar com o universo escolhido, o médico começou enviando questionários a 67 escolas de Londrina. Destacou mais de três mil respostas de adolescentes nikkeis e acabou desenvolvendo sua pesquisa com 30 adolescentes cuidados pelos avós. Apesar do cuidado e da relação afetiva com os netos, os avós não substituem os pais porque há um hiato grande de gerações, afirma.
Moriya explica que uma das dificuldades para ter acesso a estes adolescentes é que se viu obrigado a restringir-se àqueles matriculados nas escolas. Sabemos que existem casos em que os resultados da ausência dos pais são mais graves, como os que buscam nas drogas e na delinquência caminhos para suas dificuldades. Estes, porém, estão fora das escolas e não estão cadastrados em lugar nenhum. Daí a dificuldade de localizá-los para o estudo.
O pediatra esclarece que, no geral, a não-presença dos pais funciona como a morte dos mesmos: a criança ou o adolescente fica sem referência, não tem em quem se espelhar. Segundo Moriya, a criança passa por vários lutos na adolescência: primeiro a perda do corpo infantil; depois a perda da identidade e do papel infantil; e por fim a perda dos pais idealizados da infância, nascendo então o pai real. A presença dos pais nesta fase, de acordo com o médico, é essencial.
Apesar dos conflitos de gerações, os pais funcionam como uma sustentação, um porto seguro, um farol norteador, define. Com a falta de modelo na idade adulta, o jovem pode passar a buscar referência fora de casa. E nossa sociedade oferece muitas opções, boas e más.
Outra questão preocupante levantada pelo médico é que estes jovens que passam a fase da adolescência longe do pai e da mãe dificilmente se adaptarão novamente à convivência com eles. Um dos resultados obtidos pela pesquisa mostrou que grande parte não espera mais a volta dos pais. Como na época da imigração japonesa, muitos dekasseguis fizeram da situação provisória algo definitivo e já existem aqueles que estão vindo buscar seus filhos para morar no Japão. Isto acaba gerando um outro problema, que é a não adaptação destes jovens à nova realidade.
Entre outras conclusões, o estudo feito por Moriya mostra que 70% dos jovens consultados apresentaram sintomas depressivos, como desinteresse pelos afazeres cotidianos, apatia, tristeza, queda no rendimento escolar e pensamento fixo na morte. Outros 30% apresentaram sintomas de agressividade.
Dos 30 adolescentes que participaram do trabalho, 56,7% já enfrentam a ausência do pai há sete ou oito anos e 26,7% apontam a ausência da mãe por período maior que sete anos. Um dos dados surpreendentes é que 60% dos pais retratados nesses dois casos não voltaram nenhuma vez ao Brasil para rever os filhos.


