Há 92 anos, atravaca no Porto de Santos, no Estado de São Paulo, o Kasato Maru, primeiro navio japonês a trazer imigrantes para o Brasil. Começava ali, no dia 18 de junho de 1908, a saga dos japoneses que fugiam da crise econômica da terra natal. A fortuna desejada nem sempre veio facilmente, mas a maioria resistiu às inúmeras dificuldades e nunca mais voltou ao Japão. Fenômeno parecido acontece agora – só que de maneira inversa – com os dekasseguis que se aventuram nas extensas jornadas de trabalho do outro lado do mundo.
A emigração de agora também apresenta outra grande diferença da imigração do passado: desta vez o fenômeno tem como característica a ida de muitos pais que deixam no Brasil filhos ainda pequenos, aos cuidados de parentes e até mesmo de pessoas conhecidas. Estas crianças enfrentam precocemente a saudade, a ausência do afeto dos pais e todos os problemas que não ter pai e mãe por perto podem gerar.
Poucas pessoas têm parado para analisar como estes ‘‘órfãos de pais vivos’’ passaram a viver e as repercussões do fenômeno em seus desenvolvimentos cognitivo e emocional. Um pediatra londrinense encarou o desafio e lançará na próxima quinta-feira, como parte da programação da 40ª Exposição Agrícola de Londrina, o livro ‘‘Fenômeno Dekassegui: um olhar sobre os adolescentes que ficaram’’. Renato Mikio Moriya, que também é hebeatra (especialista em adolescentes), conta que a idéia de estudar o assunto surgiu no próprio consultório, onde observava, com inquietação, o comportamento de adolescentes que se encontravam nesta situação.
A obra é resultado de pesquisa feita para a monografia do curso de especialização em adolescência que Moriya concluiu no primeiro semestre de 99, e cuja tese defendeu em setembro pela Pontifícia Universidade Católica (PUC), eM Curitiba. Para trabalhar com o universo escolhido, o médico começou enviando questionários a 67 escolas de Londrina. Destacou mais de três mil respostas de adolescentes nikkeis e acabou desenvolvendo sua pesquisa com 30 adolescentes cuidados pelos avós. ‘‘Apesar do cuidado e da relação afetiva com os netos, os avós não substituem os pais porque há um hiato grande de gerações’’, afirma.
Moriya explica que uma das dificuldades para ter acesso a estes adolescentes é que se viu obrigado a restringir-se àqueles matriculados nas escolas. ‘‘Sabemos que existem casos em que os resultados da ausência dos pais são mais graves, como os que buscam nas drogas e na delinquência caminhos para suas dificuldades. Estes, porém, estão fora das escolas e não estão cadastrados em lugar nenhum. Daí a dificuldade de localizá-los para o estudo.’’
O pediatra esclarece que, no geral, a não-presença dos pais funciona como a morte dos mesmos: a criança ou o adolescente fica sem referência, não tem em quem se espelhar. Segundo Moriya, a criança passa por vários lutos na adolescência: primeiro a perda do corpo infantil; depois a perda da identidade e do papel infantil; e por fim a perda dos pais idealizados da infância, nascendo então o pai ‘‘real’’. A presença dos pais nesta fase, de acordo com o médico, é essencial.
‘‘Apesar dos conflitos de gerações, os pais funcionam como uma sustentação, um porto seguro, um farol norteador’’, define. Com a falta de modelo na idade adulta, o jovem pode passar a buscar referência fora de casa. ‘‘E nossa sociedade oferece muitas opções, boas e más.’’
Outra questão preocupante levantada pelo médico é que estes jovens que passam a fase da adolescência longe do pai e da mãe dificilmente se adaptarão novamente à convivência com eles. Um dos resultados obtidos pela pesquisa mostrou que grande parte não espera mais a volta dos pais. ‘‘Como na época da imigração japonesa, muitos dekasseguis fizeram da situação provisória algo definitivo e já existem aqueles que estão vindo buscar seus filhos para morar no Japão. Isto acaba gerando um outro problema, que é a não adaptação destes jovens à nova realidade.’’
Entre outras conclusões, o estudo feito por Moriya mostra que 70% dos jovens consultados apresentaram sintomas depressivos, como desinteresse pelos afazeres cotidianos, apatia, tristeza, queda no rendimento escolar e pensamento fixo na morte. Outros 30% apresentaram sintomas de agressividade.
Dos 30 adolescentes que participaram do trabalho, 56,7% já enfrentam a ausência do pai há sete ou oito anos e 26,7% apontam a ausência da mãe por período maior que sete anos. Um dos dados surpreendentes é que 60% dos pais retratados nesses dois casos não voltaram nenhuma vez ao Brasil para rever os filhos.

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