São Paulo, 22 (AE) - Havia um tempo em que passear a pé, pelas ruas de São Paulo, em noites de luar, com toda a família e a criadagem - em grandes grupos, de mais de 20 pessoas - era um concorrido programa de lazer em São Paulo. O sotaque típico paulistano era "acaipirado", com o som do "r" acentuado, como nas cidades do interior. Na falta de outras diversões, enterros e procissões eram muito apreciados.
Costumes como esses, que demonstram o comportamento dos moradores de São Paulo, há quase 200 anos - e são desconhecidos da maioria dos habitantes, atualmente - , foram reunidos pelo sociólogo e ex-professor da Universidade de São Paulo (USP) Carlos Eugênio Marcondes de Moura no livro A Vida Cotidiana em São Paulo no Século 19.
Lançada pela Editora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), a obra apresenta textos raros, a maioria deles escrito e publicado no século passado. Apaixonado pela história de São Paulo, Moura passou quase três anos dedicando-se às pesquisas. Utilizou também gravuras e reproduções de seu arquivo iconográfico pessoal.
Entre as 123 ilustrações publicadas na obra, sendo várias coloridas, cerca de 40 eram inéditas. Uma delas é um retrato, de autoria desconhecida, de Domitila de Castro Canto e Melo, a marquesa de Santos.
O livro também traz uma foto de uma estátua de São Jorge
em madeira, que, segundo Moura, chegou a ser processada por homicídio, pela Câmara Municipal, no século passado. Durante uma procissão, a imagem caiu do cavalo sobre um homem, provocando sua morte. Após o julgamento, recebeu a absolvição. "Hoje, a obra está no Museu de Arte Sacra da cidade", conta o pesquisador.
Naquela época, a violência não era uma questão preocupante. Mas até os padres andavam armados. "Que objetos roubariam em um assalto?", pergunta o texto. Os registros mostram que no século 19 havia homogeneidade entre a cultura e os costumes dos moradores da capital e de cidades do interior. Algumas características, entretanto, distinguiam São Paulo, a então futura metrópole.
Meteorologia - A vocação da capital para ser o principal pólo de comércio de veículos, por exemplo, é antiga. "Já no século 18, São Paulo era a cidade onde se mais comercializava muares", conta Moura.
Festas religiosas, como as comemorações da Semana Santa e Natal, assim como as eleições, atraíam as famílias abastadas, proprietárias de fazendas no interior do Estado. Segundo o pesquisador, paulistanos tinham fama de "pessoas fechadas e rudes." Era comum encontrar, pelas ruas, famílias passeando de maneira "organizada".
As crianças iam na frente, depois vinham os filhos mais velhos. Atrás deles caminhavam os pais e, por último, dos criados. As jovens permaneciam mais próximas da mãe.
Aos domingos, a população tinha o hábito de fazer piqueniques às margens do Rio Tietê. Um dos pontos turísticos mais visitados era a Ponte das Bandeiras.
Muitos maridos só permitiam que suas mulheres saíssem às ruas vestidas com o bioco, uma espécie de mantilha, de cor escura, que deixava entrever apenas os olhos - muito parecido com os trajes muçulmanos. "Há poucos registros iconográficos desse tipo de roupa feminina em São Paulo", comenta o sociólogo.
O livro conta também que, entre outros hábitos que se perderam no tempo e na correria da cidade que se transformou em metrópole, um dos mais frequentes era o das pessoas saírem nos quintais e, - sem o empecilho dos prédios e altas construções -
olharem para o Pico do Jaraguá. "Isso ajudava os moradores a prever como estaria o clima", conta o Moura. "O Jaraguá era uma referência, uma espécie de posto meteorológico da cidade."

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