Livro mostra luto de quem sofreu rejeição
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terça-feira, 07 de fevereiro de 2006
Adriana Carranca<br>Agência Estado 
São Paulo- A psicóloga e psicanalista Maria Antonieta Pisano Motta acompanhou por dois anos o cotidiano de mães que abandonaram seus filhos, desde a gestação. A experiência está no livro ''Mães Abandonadas'', na segunda edição, lançada em 2005, pela Editora Cortez.
''O abandono é um sofrimento também para quem abandona. A mãe vive a perda como em um luto e condena a si mesma pelo o que fez'', diz a especialista. ''Mas ninguém se pergunta que tipo de situação aquela mulher já viveu e vive para ter tomado tal decisão. Embora ilegal, o aborto é aceito pela sociedade, mas não o abandono.''
Não é possível traçar um perfil comum entre as mães, mas muitas são solteiras, de famílias desestruturadas, têm mais de um filho e desequilíbrio emocional, causado por problemas pessoais ou econômicos. ''O barraco queimou, o marido sumiu, ela já tem três filhos. Mais um pode ser a gota d'água numa situação já desesperadora.''
A maioria reproduz a rejeição. Isso inclui desde casos graves, como sofrer violência doméstica ou sexual, até simplesmente falta de carinho. ''Essas experiências que nos formam como adultos, mãe ou pai, são reproduzidas entre gerações.''
Para a especialista, a sociedade brasileira alimenta o mito do amor materno. ''Esse amor não é nato, se desenvolve com a convivência. Para algumas mulheres, desde a gestação. Para outras, nunca. E nessas situações, em que a mãe não consegue sentir o amor esperado pelo bebê, é muito fácil enlouquecer'', explica. Em alguns casos, a rejeição psíquica é tão grande que elas só descobrem a gravidez já em estágio avançado.
''O que mais me preocupa é o não-abandono'', diz a especialista, que coordena um grupo de apoio à adoção na capital. ''Quando a relação mãe-filho não se estabelece, pode haver violência ou abandono velado.''
O sentimento não é claro e a gravidez é levada adiante. O parto é um divisor de águas e muitas desistem da idéia após o nascimento. Outras se arrependem ainda mais tarde. ''Não são raros os casos em que mães somem por um período e voltam depois, com melhor situação financeira ou psicológica. Ter de dizer a elas que as crianças não estão mais aqui é doloroso'', diz a assistente social Edileusa Alves dos Santos, do Lar Infância de Nice. O destino das crianças é mantido em sigilo.


