Livro mostra influência dos lobbies liberais em Washington
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 16 de dezembro de 1999
Por Robert J. Samuelson, da Newsweek 
Washington (AE-NEWSWEEK) - O mais revelador sobre o recente livro do cientista político Jeffrey Berry ("The New Liberalism: The Rising Power of Citizen Groups") é que pouca gente se deu conta dele, embora sua conclusão desminta de modo marcante a sabedoria convencional. Ao fim de muita pesquisa, Berry rejeita a opinião em voga de que o liberalismo morreu nos anos 80, sufocado por Ronald Reagan, pelos ricos lobbies empresariais e por grupos políticos conservadores. A julgar pela legislação do Congresso e pela cobertura da imprensa, aconteceu exatamente o contrário. Lobbies liberais em Washingon florescem. Eles rivalizam com os lobbies empresariais no poder e esmagam grupos conservadores, como o agora extinto Maioria Moral.
Berry diz que, desde os anos 60, o enfoque do liberalismo se deslocou das questões econômicas - redistribuição de renda - para o que ele chama preocupações "pós-materiais" do estilo de vida: ambientalismo, "direitos" de todo tipo, "proteção" ao consumidor e governo "limpo".
Este liberalismo exprime-se principalmente por meio de lobbies "de cidadãos", como o Fundo de Defesa Ambiental, o Public Citizen de Ralph Nader e a Organização Nacional de Mulheres. São esses lobbies que concentram poder e influenciam os programas governamentais de Washington e moldam as notícias.
Baseado em meus 30 anos de experiência em Washington, digo que esta análise me surpreendeu prontamente, por sua exatidão. Mas, com algumas exceções (um excerto publicado na seção Outlook
de The Washington Post, várias entrevistas NPR), o estudo tem sido ignorado. Por quê? A resposta não é a de que Berry é um fanático de direita disposto a denunciar o liberalismo furtivo. Ele é democrata ("Fui criado como um Hubert Humphrey liberal")
que estuda na Universidade Tufts desde 1974 e pretende simplesmente mapear o poder dos grupos de interesses.
Para fazê-lo, Berry investigou as principais propostas apresentadas ao Congresso em 1963, 1979 e 1991. O que mudou? Que questões entraram para a agenda? Quais opiniões chegaram à imprensa? Se o Congresso aprovou uma legislação, quem saiu ganhando? Segundo o balanço do autor, o Congresso analisou - política exterior, exceto a comercial, foi excluída - 205 grandes questões nesses anos. (Uma proposta foi considerada importante se deu origem a audiências no Congresso e certa cobertura da imprensa). Eis o que Berry descobriu: - Entre 1963 e 1991, a agenda do Congresso deslocou-se para questões "pós-materiais". Em 1963, dois terços das propostas eram sobre economia, e os melhores exemplos foram o treinamento da mão-de-obra e preços de garantia para produtos agrícolas. Em 1991, cerca de 70% delas envolveram questões "pós-materiais", como o projeto sobre preservação de pântanos e a Lei da Família e Licença Médica. - Lobbies liberais agora recebem cobertura muito favorável da imprensa. Na imprensa escrita (Berry usou The New York Times, The Wall Street Journal e o Congressional Quarterly Report do Congresso), grupos liberais representaram quase metade das citações feitas por lobistas.
Associações de classes industriais ficaram em 30% e as de corporações, 1%. Programas noticiosos de TV em rede seguiram o mesmo padrão. - Lobbies liberais vencem cada vez mais. Em 1963, lobbies empresariais tiveram três vitórias para cada derrota infligida por lobbies liberais.
Em 1991, as empresas tiveram três vitórias para cada duas derrotas. Até isto exagera o poder empresarial, pois muitas vezes as indústrias estavam simplesmente repelindo legislação hostil. Grupos conservadores, como a Coalizão Cristã, tiveram pouca influência na legislação.
O estudo de Berry refuta a opinião de que interesses dos endinheirados ou ideólogos conservadores dominam Washington. A opinião popular é diferente, em parte porque a captura do Congresso pelos republicanos em 1994 criou a falsa impressão de que houve um triunfo dos conservadores.
Para examinar essa opinião, Berry avaliou 12 questões ambientais que tramitaram no 104º Congresso (1995-96). Ele concluiu que os ambientalistas venceram 10. Também se exagera o poder dos conservadores porque algumas de suas idéias prevaleceram. Em matéria de política econômica, orçamentos equilibrados - em períodos de abundância - e baixa inflação agora atraem apoio generalizado. É o que também acontece com a "reforma da previdência".
Mas a causa principal da desinformação - e do motivo pelo qual o estudo de Berry passou despercebido - é que as pessoas têm interesse nela. Naturalmente os lobbies liberais também têm. Eles adoram a imagem que têm, de grupos pobres enfrentando ricos lobbies empresariais apesar das enormes desvantagens. Na verdade
Berry constata que lobbies liberais são com frequência bem financiados e altamente profissionais.
Contrastando com isso, lobbies conservadores (mas não grupos empresariais) são com frequência mal financiados e mal dirigidos. Eles não têm interesse em divulgar sua fraqueza.
Claro que a imprensa devia apresentar um quadro verdadeiro - mas não o faz. Se o fizesse, teria de admitir que com frequência ajuda lobbies liberais. Isto resulta menos do esforço consciente para promover uma agenda e mais de convicções compartilhadas. Jornalistas vêem "a história" como os lobbistas liberais o fazem. As empresas são consideradas gananciosas, intereseiras e não democráticas. Grupos conservadores não estão "em contato com a realidade" ou são socialmente perigosos. Contrastando com isso, lobbies liberais são "guardiães" com espírito público.
Deduz-se facilmente a convergência de valores a partir de pesquisas de opinião. Veja-se uma pesquisa feita em 1995 entre repórteres de Washington. Apenas 2% deles se consideraram "conservadores", ao passo que 89% haviam votado em Bill Clinton em 1992 (em comparação com os 43% dos votos dados pela população em geral). Apenas 4% eram republicanos (50% eram democratas, 37% eram "independentes"). Pessoas que cultivam esses valores subestimam o poder dos "bons sujeitos" e fazem com que os "maus sujeitos" pareçam ameaçadores. Por exemplo, um artigo publicado em The New York Times indicou que os interesses empresariais dominaram a última legislatura do Congresso ("Congresso Deixa Lobbies Empresariais Muito Felizes"). Na verdade, o artigo mostrou que grupos empresariais tiveram algumas vitórias modestas e ficaram na defensiva em matéria de salário mínimo e "direitos dos pacientes".
Numa democracia, o vigor dos lobbies liberais é salutar. Eles com frequência têm exito porque se apresentam como voz da opinião pública.
Por exemplo, quatro quintos dos americanos se consideram ambientalistas, informa uma pesquisa de opinião da Pew Research. O que não é salutar são os falsos estereótipos que distorcem quem tem influência. Estes fazem discriminação contra certas opiniões e popularizam a idéia de que o sistema político - dominado por "forças não democráticas" - é corrupto e insensível. Na verdade, a política muitas vezes fica num impasse porque a opinião pública está num impasse. Na mesma pesquisa da Pew, quase metade dos americanos pensa que a função reguladora do governo "mais prejudica do que faz bem".
Nossos estereótipos atuais transformam erroneamente a discordância legítima numa cínica conspiração contra o povo.


