Washington, 12 (AE) - Durante os mais de três anos anos em que serviu como embaixador em Washington, a partir de meados de 1979
o ex-chanceler do governo Ernesto Geisel, Antonio Azeredo da Silveira, não perdia oportunidade para falar aos correspondentes brasileiros sobre seu "amigo Henry".
Na época, o amigo, o ex-secretário de Estado Henry Kissinger, já estava fora do poder e frequentava os jantares oferecidos por Silveira em sua residência oficial. Jimmy Carter era o presidente dos Estados Unidos e as relações entre o Brasil e os Estados Unidos haviam entrado numa fase de franca deterioração, em consequência tanto da política do governo Geisel, inspirada por Silveira, de romper com a política de alinhamento automático com Washington, que o Brasil seguira a partir da 2ª Guerra Mundial, como da ofensiva da Casa Branca contra a política nuclear brasileira e as violações dos direitos humanos no País.
Nomeado embaixador nos EUA a contragosto (seu sonho era ter terminado a carreira em Paris) e friamente recebido pelos americanos, Silveira nunca escondia que a antipatia era mútua. "Eu virei a página", gabava-se ele, referindo-se à guinada histórica que a diplomacia brasileira dera sob seu comando, a partir de 1975, com decisões como o voto nas Nações Unidas a favor de uma resolução que equiparou o sionismo a uma forma de racismo, a aproximação do Brasil com os países árabes, o reconhecimento dos movimentos de libertação da áfrica de língua portuguesa como o Movimento pela Libertação de Angola (MPLA), apoiado por Cuba e pela União Soviética, o restabelecimento de relações diplomáticas com a China e, mais tarde, a denúncia unilateral de um antigo acordo bilateral de cooperação militar com os EUA, em reação à ofensiva do governo Jimmy Carter contra a política nuclear brasileira e os abusos dos direitos humanos no País.
"Este é o império onde os centuriões já não querem mais ir para a guerra", alfinetava o embaixador, falando sobre a síndrome criada pela derrota americana no Vietnã que até hoje condiciona os engajamento de forças americanas em conflitos armados.
Sobre seu amigo Henry, no entanto, Silveira, fazia apenas elogios. Vaidoso, o diplomata brasileiro, já falecido, gostava de lembrar que foi o primeiro chanceler de um país em desenvolvimento a ser tratado como um igual por Kissinger, estabelecendo com ele um mecanismo de consultas formais periódicas entre Brasília e Washington, que colocou o Brasil no mapa da diplomacia norte-americana.
Já se sabia que Silveira também causou forte impressão ao ex-secretário de Estado americano. Anos atrás, o ex-embaixador Roberto Campos, que é amigo de Kissinger, contou a amigos o que ouviu dele sobre Silveira num jantar que tiveram em Londres, quando era embaixador do Brasil na Inglaterra.
"Eu conheço apenas dois casos claros de megalomania", disse Kissinger a Campos. "O seu ministro Silveira e eu mesmo - com algumas diferenças em realizações entre nós."
Kissinger é mais generoso com Silveira nas três páginas do terceiro e último volume de suas memórias, lançado recentemente, Years of Renewal, que dedica aos dois anos e meio em que tratou com ele das relações entre os EUA e o Brasil. Trata o ex-chanceler brasileiro como amigo e valoriza o diálogo que teve com ele como o mais substantivo entre seus interlocutores na América Latina. O relato do ex-secretário de Estado centra-se na busca, pelo Brasil, de um relacionamento especial com os EUA após um período de esfriamento das relações, nos governos Costa e Silva e Médici, e o previsível colapso da estratégia do Novo Diálogo com a América Latina que Washington perseguira no governo Nixon, ao mesmo tempo em que incentivava golpes de Estado no Chile e no Uruguai em nome dos objetivos estratégicos americanos na guerra fria.
Visão mundial - Kissinger conta que resumiu sua atitude em relação ao Brasil ao presidente Ford depois da visita que fez ao País no início de 1976, quando ouviu do então chefe de gabinete de Geisel, o general (reformado) Golbery do Couto e Silva, que o retorno do País à democracia era apenas uma questão de tempo. "O Brasil tem uma visão mundial", escreveu o secretário de Estado a Ford. "Além disso, o interesse do Brasil nos assuntos mundiais - os acordos de limitação de armas nucleares, a abertura para a China, a distensão Leste-Oeste, o Oriente Médio - é interesse de homens sérios, não de diletantes, pois eles pensam que têm um papel a desempenhar."
Segundo o ex-secretário de Estado, Silveira fez o máximo para justificar essa avaliação. "Loquaz, esperto, ele tinha, como quase todos os diplomatas brasileiros um comando perfeito da língua inglesa", escreve Kissinger. "Seu estilo variava em relação a seus colegas latino-americanos, que se sentiam obrigados a acompanhar acordos ocasionais com os Estados Unidos com gestos de desafio para demonstrar que eram imunes a tentativas dos EUA de dominar; Silveira não se sentia sob pressão comparável", continua. "Ele insistia em ser ouvido porque, na América Latina, o Brasil era o único país que conduzia uma política externa global; O Brasil não é Honduras, disse Silveira num encontro em setembro de 1975; "Estamos nos tornando um País que precisa ser levado em conta".
Silveira acreditava que seu papel era acelerar esse processo, escreve Kissinger. "Quando eu lhe disse, numa reunião da Organização dos Estados Americanos em Santiago, que ele não precisava insistir tanto nesse ponto porque o Brasil estava destinado a se transformar num país significativo, ele respondeu: A política externa coloca um País à frente de seu tempo; na visão de Silveira, a auto-afirmação brasileira era especialmente importante porque nossas divisões internas (nos EUA) tornava nossa conduta demasiadamente imprevisível."
A busca dessa auto-afirmação, acrescenta Kissinger, passava pelo fortalecimento dos laços do Brasil com o Terceiro Mundo "não para enfraquecer os EUA, mas para alcançar o poder de potência para si mesmo". Em contraste com a maioria das Nações do Hemisfério, que definiam independência como um fuga de posições conjuntas com os EUA, o Brasil adotou o rumo oposto, ou seja, pretendia usar seus laços com o Terceiro Mundo para insistir numa política comum com os EUA, escreve o ex-secretário de Estado.
Se é que tinha algum futuro, essa estratégia desmoronou com a derrota do republicano Ford para o democrata Jimmy Carter em novembro de 1976, uma possibilidade na qual Silveira recusou-se a acreditar até praticamente às vésperas da eleição presidencial
apesar de ter sido informado semanas antes de que esse era o desfecho mais provável pelo então chefe do setor político da embaixada brasileira em Washington, Rubens Ricúpero, num episódio que ficou famoso no Itamaraty.
Em poucos meses, a tentativa do governo Carter de torpedear o acordo nuclear que o Brasil assinara com a Alemanha e a nova ênfase americana na proteção dos direitos humanos produziu um curto-circuito nas relações entre os dois países, com a denúncia do acordo militar por Brasília.
Diferença - Hoje, um discípulo de Silveira, o embaixador Luiz Felipe Lampreia, comanda o Itamaraty. Os chanceleres do Brasil e dos EUA voltaram a ter reuniões periódicas de consulta. Mas as relações entre os dois países evoluíram mais na direção preconizada pela visão de Carter, que se tornou política dos EUA
do que do pragmatismo supostamente responsável que orientava o diálogo Kissinger-Silveira. A prova final foi dada pela decisão do atual governo de reverter uma posição central da diplomacia do regime militar, da qual Silveira foi a maior expressão, e assinar o Tratado de Não-Proliferação Nuclear.
Um ex-diplomata americano que serviu com frequência de mensageiro entre os dois ex-chanceleres vê três diferenças importantes no relacionamento atual entre o Brasil e os EUA, comparado com o período dos anos 70 descrito por Kissinger. "A primeira é que não há mais ilusões no diálogo", disse ele. "Kissinger não era um democrata em matéria de relações internacionais; acreditava na importância de países grandes e tinha a ilusão de que o mecanismo especial de consulta com o Brasil era uma maneira de ganhar o apoio da potência subimperial da América do Sul; Silveira, por sua vez, tinha a ilusão de que o relacionamento especial que buscava com os EUA seria suficiente para levar o executivo americano a bloquear demandas de interesses particulares americanos prejudiciais ao Brasil, especialmente na área comercial, pois não era capaz de imaginar que o governo dos EUA pudesse de tornar refém desses interesses."
A outra diferença, segundo o ex-diplomata, reflete a perda de importância dos conceitos de Nação-Estado e soberania e de suas consequências práticas na formulação da política externa americana no pós-guerra fria. "Infelizmente, os Estados Unidos estão menos interessados no Brasil hoje do que estavam há 25 anos, porque Washington perdeu a visão geoestratégica que tinha da diplomacia". Por outro lado, "o Brasil ficou mais esperto e lida melhor com suas relações com Washington, inclusive com a falta de interesse americano pelo Brasil", disse o diplomata aposentado.
"Silveira era fascinado pela figura de Kissinger e provavelmente achava natural que houvesse um relacionamento especial entre eles, porque tinha uma visão grandiosa de si mesmo; hoje, os brasileiros conhecem muito melhor os EUA, são mais realistas também em relação ao próprio Brasil e entendem que levará mais tempo para o País se transformar numa Nação moderna do que se pensava nos anos 70, quando prevalecia ainda a visão juscelinista."

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