Curitiba - O Paraná faz parte de um ''corredor'' de aliciamento para trabalhos escravos nas regiões Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. A constatação é da Comissão Pastoral da Terra (CPT), entidade ligada à Igreja Católica, que vai lançar hoje em Curitiba e em outras 20 cidades brasileiras o livro ''Vidas Roubadas - a escravidão moderna na Amazônia brasileira''. O lançamento coincide com o Dia Nacional da Consciência Negra, comemorado hoje.
A região noroeste do Paraná é o principal celeiro para os aliciadores do trabalho escravo, conhecidos como ''gatos''. De acordo com o secretário-executivo da CPT do Paraná, Jelson Oliveira, essa atração ocorre principalmente na entressafra, nas regiões mais pobres. ''Os gatos sabem que há muita mão-de-obra disponível nessa região. Eles fazem promessas e criam expectativas nos trabalhadores'', relatou Oliveira.
Os paranaenses geralmente são levados para trabalharem em Mato Grosso do Sul e nas regiões sudoeste de São Paulo e de Minas Gerais. Segundo Oliveira, o Estado também recebe muita mão-de-obra escrava. A CPT estima que em 1999 o Paraná recebeu 1,5 mil pessoas nessa condição vindos de Alagoas, sem considerar outras regiões. No Paraná, as últimas denúncias de exploração de trabalhadores foram feitas em 1999. Segundo a CPT, uma fazenda de Bom Sucesso (41 km ao sul de Apucarana) explorava 280 pessoas vindas de Alagoas.
Entre 1973 e 1995, a CPT nacional recebeu denúncias de trabalho escravo envolvendo 431 fazendas e 85 mil trabalhadores, o que representa uma média anual de 18 fazendas e 3,7 mil pessoas. De 1988 a 1996, esse índice anual passa para 22 propriedades e 11 mil pessoas envolvidas. Entre janeiro e agosto deste ano, já foram acusadas 127 fazendas que arregimentaram ilegalmente 5.391 trabalhadores.
Segundo Oliveira, a atuação mais eficaz da CPT e outros órgãos federais contribuiu para o maior número de casos registrados. ''Mas o trabalho escravo aumentou no Brasil e no mundo por causa da situação de miséria e desemprego'', afirmou. Para ele, a impunidade também fomenta esse tipo de irregularidade. ''Pela Constituição, a terra que usa trabalho escravo tem que ser desapropriada e utilizada na reforma agrária, mas isso não é cumprido'', criticou.
O livro que será lançado hoje em diversas livrarias, de autoria da jornalista inglesa Binka Le Braton, traz um encarte com informações sobre a campanha permanente da CPT contra o trabalho escravo. A entidade também fornece panfletos para os trabalhadores com telefones úteis em caso de aliciamento. ''As pessoas geralmente são levadas para trabalhar longe de casa porque no novo lugar não vão conhecer ninguém e ficam à mercê dos exploradores'', acrescentou Oliveira.

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