Livre relata "turismo político" de filósofos franceses Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 21 (AE) - De 1917 A 1970, caravanas de intelectuais realizaram peregrinações primeiramente à URSS, depois a Cuba e finalmente à China. Hoje, após ter cessado este "turismo político", aparece um livro para analisá-lo: Au pays de lavenir radieux (Edições Hatier).
O autor, François Hourmant, é sociólogo. Ele poderia muito bem ter sido também antropólogo porque examina estes personagens como se estudaria uma sociedade exótica, com seus ritos, suas cerimônias, suas lendas. Simplesmente, esta tribo estudada por Hourmant não é a dos pigmeus ou dos Dogons. É uma tribo européia de alta inteligência, de gosto refinado.
A peregrinação "ao país do futuro radiante" é realizada por personagens ilustres. Para a URSS, André Gide ou Romain Rolland. Para Cuba, Jean-Paul Sartre ou Simone de Beauvoir. Para a China, Philippe Sllers, André Barthe e Julia Kristeva. E há muitos outros, menos célebres. Mas todos, "ao voltarem", publicam o diário de viagem, mais frequentemente um "diário de êxtase" e, raras vezes, um "diário de pesadelo". Nesta última categoria, o mais tonitruante é o grande André Gide.
Gide, como todos os intelectuais meio generosos de seu tempo, estava fascinado pela revolução comunista. Partiu com uma imensa esperança.
Stalin o recebeu como um príncipe. Mas o que disse ele depois
ao voltar da URSS? - "Duvido que em algum outro país hoje em dia, e nem mesmo na Alemanha de Hitler, o espírito humano seja menos livre, mais curvado, mais temeroso, mais avassalado". Foi um escândalo!
O caso de Gide é uma exceção. A maior parte dos peregrinos volta contente: mostraram-lhes bebês rechonchudos, felizes de terem nascido no paraíso socialista, kolkhozes maravilhosos, mulheres finalmente livres, etc. O tema é este: Lá houve um corte, uma ruptura na história.
De agora em diante, existe um "outro mundo". Lá se fabrica uma humanidade sem precedentes, as imagens de uma "Vita Nuova" que vai tornar "bem fracas, bem ultrapassadas, as imagens de uma Europa atacada pelo mal dos velhos".
A caravana de peregrinos a caminho a da URSS diminuiu depois da Guerra. Não tem importância: outro país já está a caminho para substituir a URSS , outro país onde a história vai recomeçar.
Jean-Paul Sartre, rapidamente convidado por Castro, ficou maravilhado: "O senhor conhece minha admiração por Guevara. Penso que este homem não foi apenas um intelectual, mas o homem mais completo de seu tempo".
A febre cubana não dura muito. É preciso encontrar um novo paraíso.
Desta vez, é a China que vai atrair os intelectuais. O apelo foi dado por uma grande intelectual italiana, Maria Antonietta Macciochi, e pelo romancista Alberto Moravia. Macciochi ficou enfeitiçada por Mao. E, por sua vez, enfeitiçou tão bem seus amigos franceses, particularmente o grupo "Tel Quel", que Roland Barthes, Philippe Sollers, Julia Kristeva e outros foram acolhidos na China onde permaneceram durante três semanas (1974). Quando relidos hoje em dia, seus textos parecem inacreditáveis.
Meu pobre, caro Roland Barthes, tão delicado, tão inteligente
tão sincero! Barthes escreve: "As caligrafias de Mao, reproduzidas em todas as escalas, marcam o espaço chinês com um grande jato lírico, elegante, ervoso" (Um "jato ervoso": para que o excelente Barthes tenha escrito tamanha besteira, teria sido necessária a intromissão de Mao!) O encantamento não durou muito. Por um lado, por causa da própria China. Por outro, por causa de um verdeiro conhecedor da China, um polemista fulgurante, chamado Simon Leys, que não teve dificuldade em mostrar o lado triste do "paraiso chinês". Philippe Sollers publicou sua "autocrítica" a partir de 1976. Julia Kristeva, mulher de Sollers, também tremendamente inteligente, explicou por sua vez que todos foram à China, naquela época, para mostrar que havia uma alternativa para o fracasso soviético. E arrisca esta acrobacia vertiginosa: "Nosso interesse pela China parece-me, com o recuo, como que uma das numerosas fissuras no Muro de Berlim"(!). Não desprezemos estes peregrinos, simultaneamente audaciosos e enganados: sua conduta, na maioria das vezes, longe de ser baixa, era generosa. Eles acreditaram verdadeiramente que, do outro lado do espelho, iria surgir outra sociedade, expurgada enfim das purulências dos egoismos e dos canibalismos da nossa sociedade. Neste sentido, este livro projeta clarões preciosos sobre o século que está terminando.





