Littleton ainda teme mais violência Do correspondente Paulo Sotero
LITTLETON, EUA, 21 (AE) - Quase 24 horas depois do último disparo num colégio de Littleton, no Estado americano do Colorado, o risco de mais violência ainda não estava afastado hoje (21).
As autoridades informaram que, no interior da Columbine High School, havia 15 mortos - 11 homens e 4 mulheres -, incluindo os 2 jovens assassinos, que se suicidaram, segundo a polícia, após a fuzilaria de terça-feira. Os policiais, porém, encontraram dezenas de armadilhas montadas pelos assassinos com bombas caseiras, programadas para explodir no momento em que os cadáveres fossem transportados.
Enquanto a pequena comunidade de Littleton, um subúrbio da capital do Estado, Denver, tentava compreender o que se passara, em Washington, o presidente americano, Bill Clinton, declarava-se perplexo com o ataque e não descartava a possibilidade de visitar a região.
Apesar do esforço das autoridades e dos órgãos da mídia americana para encontrar explicações para o massacre, o real motivo do crime ainda é um mistério.
Os testemunhos de estudantes que conseguiram escapar do massacre indicam apenas que dois membros de um grupo aparentemente violento, racista e neonazista entraram atirando no refeitório da escola durante a hora do almoço, lançando bombas, disparando a esmo e rindo muito enquanto espalhava o terror, matando primeiro os atletas do colégio e membros de minorias étnicas.
Eric Harris, de 18 anos, e Dylan Klebord, de 17 - os atiradores, que se suicidaram após a tomada da escola e foram os únicos mortos cuja identidade foi divulgada pela polícia -, usavam longas capas pretas e máscaras de esqui quando invadiram o prédio da escola. Eles integravam uma gangue chamada "máfia da capa preta".
"Era o que havia de pior nessa escola", informou uma aluna. "Seu ídolo era Hitler e eles diziam que festejariam a seu modo o aniversário dele." Na terça-feira, completavam-se 110 anos do nascimento de Hitler.
Depois de terem irrompido no refeitório, Harris e Klebold ordenaram a todos os atletas que estavam no local para que ficassem em pé, segundo um dos sobreviventes, Aaron Cohn.
"Mas não chegaram a esperar e começaram a disparar a esmo", afirmou Cohn. "Uma jovem escondeu-se debaixo de uma mesa; ao descobri-la, um dos assassinos disse cuco e disparou a sangue-frio contra sua cabeça."
"Um deles, depois, apontou uma pistola para mim", continuou Cohn. "Mas, no mesmo momento, viu um estudante negro; em vez de atirar em mim, virou-se e, aos gritos de ódio aos negros, disparou na direção dele."
Segundo Cohn, de tempos em tempos, os dois assassinos passavam a promover uma chuva de balas, disparadas indiscriminadamente, impedindo a fuga de centenas de alunos apavorados. Muitos foram mortos durante essas séries de disparos. Os feridos que reclamavam recebiam um tiro de misericórdia.
Aos disparos seguia-se o lançamento de bombas. A polícia cercou o complexo de edifícios da escola, mas os dois assassinos continuaram a espalhar o pânico em seu interior por mais de quatro horas.
Os policiais, entre quais integrantes de unidades de atiradores de elite, só entraram no colégio depois de as armas terem se calado. Os dois agressores estavam mortos ao lado dos cadáveres de suas vítimas. Antes, porém, tinham transformado a escola num vasto campo minado, espalhando armadilhas por todo o prédio.
"Encontramos mais de 30 bombas", informou Steve Davis, porta-voz do xerife local. "Duas delas estavam colocadas ao lado do tanque de gasolina do carro usado pelos assassinos, o que demonstra que o objetivo deles era o de matar o maior número de pessoas possível."
"Os preparativos para esse massacre levaram vários dias e os assassinos conseguiram todas as armas de que precisavam, como pistolas, fuzis e dezenas de bombas rudimentares, feitas em casa", informou Davis.
Os familiares dos dois assassinos, porém, disseram não saber que eles manejavam armas e explosivos.
"É preciso deixar as coisas bem claras: nenhuma gangue juvenil, por violenta que fosse, causaria tantas mortes se seus membros estivessem usando canivetes ou navalhas", afirmou a deputada Carolyn McCarthy, viúva de um homem assassinado a tiros e uma das mais tenazes combatentes da National Rifle Association (NRA), o poderoso lobby dos fabricantes de armas dos EUA
"A verdade é que os jovens de todos os EUA têm uma enorme facilidade de acesso a armas de fogo e o massacre de Littleton destrói a ilusão de que episódios como esse ocorrem só em guetos urbanos ou em remotas comunidades rurais."





