São Paulo, 28 (AE) - A notícia sobre a liminar que concedeu o auxílio-moradia de até R$ 3 mil para os juizes federais teve repercussão negativa não só no Congresso, mas, principalmente, em São Paulo. A capital paulista é uma das seis regiões metropolitanas onde foi registrado um dos maiores índices de desemprego dos últimos anos, 7,6%, segundo o Instituo Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O benefício - concedido no auge das discussões sobre o aumento do salário mínimo - provocou revolta em muitos trabalhadores paulistanos que não economizaram adjetivos para definir o auxílio-moradia: "absurdo", "vergonhoso", escândaloso". Em frente do Fórum João Mendes, no centro da capital, Rita Alkmim, de 43 anos, formada em Línguas, reclamava da situação. Ela trabalha na Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) há 14 anos e ganha, brutos, R$ 1.200, dinheiro com o qual sustenta três filhos."Sinto-me como se fosse ninguém nesse País", disse. Rita diz que se sente lesada porque, ao contrário dos juízes, os benefícios dela na empresa foram cortados.
O aposentado José Luz, de 63 anos, que foi hoje ao Fórum para resolver processos, também reclamou. Ele está indignado com a rapidez com que o benefício para os juízes foi aprovado, enquanto a definição do salário mínimo é motivo para briga: "Sobre o mínimo, não há resultado."
O advogado José Domingos Mariano, de 60 anos, está igualmente revoltado: "Eles já ganham muito para não fazer nada." A advogada aposentada Nelsy Maria Muhle, de 64 anos, considera um privilégio muito grande o auxílio de R$ 3 mil. "O povo não tem situação financeira para arcar com esse tipo de despesa, mesmo considerando que o trabalho deles é importante."
Com a mesma indignação raciocina Geraldo Silva, de 50 anos, médico que é funcionário da Prefeitura de São Paulo há 18 anos: "Não dá para engolir esse tipo de coisa."
Antonio Veriano, de 28 anos, reconhece haver, em muitos casos, a necessidade de um auxílio-moradia, principalmente quando as comarcas ficam fora da cidade em que os juízes vivem. "Mas não sei dizer se esses R$ 3 mil são compativeis com a nossa realidade." A advogada Andrea Theodoro, de 27 anos, disse que os promotores recebem diárias quando estão fora das residências de origem e que os juízes até teriam direito a esse benefício também: "Mas que o valor é alto, é." Renato Rocha, de 37 anos, funcionário público estadual, também afirma que os juízes "já têm um lugar para morar" e que o benefício seria desnecessário.
Camila de Melo Santos, 21 anos, estudante de Direito da Pontifícioa Universidade Católica (PUC) de São Paulo, não tem opinião definida sobre o tema, mas reconhece que "a profissão de magistrado é muito importante, e, infelizmente, eles são uma categoria diferenciada porque têm o poder de julgar e precisam de incentivo para representar bem a magistratura".
Fabiana Fernandes, de 28 anos, advogada: "Eles camuflaram, foi mais uma forma de dar o aumento que pretendiam"
disse. "Não acho que eles sejam especiais; isso é privilégio."
Hélio dos Santos, 49 anos, comerciante: casado, tem uma filha de 8 anos e mora na Freguesia do à, zona norte. Ele, a mulher e cinco funcionários fabricam bichos de pelúcia. "Seria interessante se todos os funcionários conseguissem a mesma coisa", disse. "Bastou uma ameaça de greve e conseguiram, embora não possam fazer greve."

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