Líderes sem-terra são mortos no Pará
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sexta-feira, 27 de março de 1998
Das agências 
Dois líderes rurais, ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), foram assassinados ontem a tiros na agrovila Cedere 1 (Centro de Desenvolvimento Regional) no município de Parauapebas, Sul do Pará. O MST acusa fazendeiros e funcionários da fazenda Goiás 2 pela morte dos sem-terra. A Secretaria de Segurança Pública investiga a possibilidade de envolvimento de policiais militares no conflito. A PM nega sua participação.
Cerca de 520 famílias sem terra começaram na manhã de anteontem a desocupação da fazenda Goiás 2 e estavam se transferindo para a agrovila. A Justiça do Pará tinha determinado a reintegração de posse da área. Na noite de anteontem, segundo o MST, um grupo de fazendeiros e funcionários da fazenda Goiás 2 teria se aproximado do coordenador do MST na região, Valentin Serra, conhecido como Doutor, e disparado dois tiros no tórax. O líder sem-terra Onalício Araújo Barros, conhecido como Fusquinha, teria tentado ajudar o colega, mas uma bala o acertou nas costas. Os corpos dos dois líderes só foram localizados ontem pelos próprios sem-terra.
Barros foi encontrado no início da manhã na agrovila Cedere 1. Serra foi achado no início da tarde à beira do rio Verde, afluente do rio Parauapebas. A agrovila Cedere 1, que fica a cinco quilômetros da fazenda Goiás 2, é um assentamento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) na região.
A fazenda Goiás 2 pertence a Carlos Antonio da Costa, que, segundo o Incra, comprou cerca de 20 títulos de assentados no local e constituiu uma propriedade de 1.500 hectares. O MST diz que Costa teria participado do conflito. A reportagem não conseguiu localizar o fazendeiro durante todo o dia de ontem. Depois do conflito, as famílias foram levadas de caminhão para o assentamento na fazenda Palmares, a 45 quilômetros de Goiás 2, onde devem permanecer este fim-de-semana.
Uma comissão da Secretaria de Segurança Pública do Pará, composta de dois médicos legistas, um auxiliar de necrologia, um perito criminal e do diretor da Divisão de Operações Especiais da Polícia Civil do Pará, Lauriston Goes, foi enviada para o local na tarde de ontem para investigar o caso. Representantes do Ministério Público, da Sociedade Paraense de Direitos Humanos e do MST acompanham a comissão. Um grupo de deputados estaduais do Pará também viajou a Parauapebas e deve se encontrar hoje com o governador Almir Gabriel (PSDB), que tem agendado inaugurações em Marabá, município próximo a Parauapebas. O município de Parauapebas fica próximo a Eldorado de Carajás, onde, em abril de 96, 19 sem-terra morreram em conflito com a PM, que tentava desimpedir a rodovia PA-150. Os partidos de esquerda e sindicalistas programaram para a noite de ontem uma vigília em frente à Basílica de Nazaré. O MST da região programou para hoje uma manifestação no centro de Parauapebas.


