Líderes mundiais prometem construir uma Europa sem divisões
Sarajevo, 30 (AE-AP) - Líderes de 40 países lançaram hoje (30) em Sarajevo uma iniciativa para impulsionar reformas democráticas e econômicas nos conturbados Bálcãs, na esperança de criar uma Europa sem divisões, "onde a guerra seja impensável".
Mas os dirigentes ocidentais insistiram em manter a Sérvia isolada até que o presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, deixe o poder, o que provocou objeções da Rússia.
"O Pacto de Estabilidade para o Sudeste Europeu visa garantir que os horrores que esta cidade sofreu em anos recentes pertencerá definitivamente ao passado", afirmou o presidente finlandês, Martti Ahtisaari, ao abrir o encontro de três horas que reuniu, entre outros, dirigentes dos EUA, União Européia, Rússia, Montenegro e oposição sérvia. "Este pacto prevê uma Europa finalmente não dividida, próspera e livre."
Os dirigentes prometeram trabalhar para integrar os Bálcãs à corrente principal da Europa, mas insistiram que os Estados da região precisam viver como bons vizinhos. Num passo nesse sentido, a Bósnia e a Croácia firmaram hoje mesmo um acordo paralelo resolvendo disputas fronteiriças.
Entre os objetivos do Pacto de Estabilidade estão a criação de democracias maduras e economias de mercado vibrantes, o combate à corrupção e ao crime organizado, e a prevenção de guerras e crises de refugiados. Políticas detalhadas para isso começarão "em breve" a ser preparadas por funcionários dos governos e instituições que participaram do encontro.
O presidente americano, Bill Clinton, afirmou que a vitória da Otan em Kosovo depois de 11 semanas de ataques aéreos contra alvos sérvios não terá sentido se não houver um esforço conjunto internacional para desenvolver as economias balcânicas. "Não podemos dizer que nosso trabalho terminou quando os refugiados estão voltando para vidas arruinadas", afirmou Clinton. "A transformação e integração desta região não pode ser alcançada aos pedaços, uma província, um país, uma crise de cada vez. A paz certamente vai variar, mas temos de avançar juntos."
O dirigente americano anunciou uma pacote de ajuda de US$ 700 milhões para promover a estabilidade e prosperidade dos Bálcãs, palco de quatro guerras nesta década. "Não é suficiente encerrar uma guerra", assinalou. "Precisamos construir a paz." Os EUA deverão eliminar tarifas sobre a importação de vários produtos da região e criar fundos de investimentos com o objetivo de canalizar centenas de milhões de dólares para lá. Clinton pediu que a União Européia também dê à região mais pobre do continente maior acesso a seus mercados, mas reiterou que a Sérvia - a qual, com Montenegro, forma a Federação Iugoslava - só receberá ajuda humanitária "quando se democratizar".
"A Sérvia só vai ter futuro quando o sr. Milosevic e suas políticas forem relegados ao passado", afirmou Clinton. Para isso, ele anunciou que pedirá ao Congresso americano que aprove uma ajuda de US$ 10 milhões para sindicatos, grupos de oposição e organizações independentes de notícias da Sérvia que queiram promover a democracia. Um setor da desunida oposição sérvia, a Aliança pela Mudança, tem organizado protestos diários contra Milosevic. O de hoje, realizado em Leskovac, reuniu 4 mil pessoas.
No entanto, a Rússia, tradicional aliada sérvia, impediu que fosse incluída uma referência crítica a Milosevic na declaração final da cúpula e advertiu que a não-concessão de ajuda à maior república iugoslava pode provocar uma tragédia humana no inverno. "Nós não nos associamos a esse vínculo estreito entre a ajuda e (a saída de) Milosevic", afirmou o primeiro-ministro russo, Serguei Stepashin. Ele disse não ter "apreensões sérias" em relação ao Pacto de Estabilidade, mas afirmou que excluir a Sérvia dessa iniciativa pode ser um obstáculo para a obtenção da duradoura paz pretendida e, no fim, a população é que acabará sendo prejudicada. "Dez milhões de pessoas estarão à beira de dificuldades muito grandes no inverno. Elas terão necessidade de assistência, e não apenas humanitária."
A imprensa pró-governamental de Belgrado também criticou a posição ocidental, acusando os promotores da cúpula de Sarajevo de ter um plano secreto para desmembrar a Iugoslávia. "Trata-se de uma chantagem dos poderosos, que não querem pagar pelos danos de guerra nem responder pelos crimes contra a população civil de nosso país", assinalou o jornal Politika em editorial. "Sem a Iugoslávia não se pode falar em estabilidade", ressaltou a agência oficial Tanjug.





