Líderes marcam ato como início de amplo movimento
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quarta-feira, 25 de agosto de 1999
Por Valdir Sanches e Mário Henrique Viana 
Brasília, 26 (AE) - Os pronunciamentos dos políticos hoje no encerramento da Marcha dos Cem Mil procuraram marcar o ato como o início de um movimento mais amplo, que poderia mudar o País. O rumo, para o líder nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) João Pedro Stédile é uma greve geral, em 8 de outubro, quando um outro movimento, a Marcha pelo País (em curso), chegar a Brasília. A greve geral somaria um fim mais amplo, a mudança do governo.
Para o presidente nacional do PDT, Leonel Brizola, o rumo é fazer o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso "derreter como água" e "entronizar no Palácio do Planalto um presidente que seja da confiança do povo brasileiro". O presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, vê como rumo levar a "um novo País, um novo modelo econômico, nova política industrial e reforma agrária".
O presidente nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, disse que o rumo é "mudar a Constituição para ter eleições já". O presidente nacional do PC do B, João Amazonas, viu um rumo mais radical: "O caminho da luta é o caminho do Araguaia (onde a luta armada tentou se instalar, no regime militar), sem dúvida."
Lula, Brizola, Vicentinho e outros nomes da oposição foram muito aplaudidos. O senador Roberto Requião (PMDB-PR) e o deputado Waldemar da Costa Neto (PL-SP) foram vaiados. Apesar disso, Requião "decretou" a renúncia de Fernando Henrique: "Ele já renunciou, só esqueceu de se mudar do Planalto." Costa Neto chamou o governo de "incompetente ou mal-intencionado".
No início do discurso, Lula falou que a manifestação conseguira "dizer em alto e bom som para o presidente Fernando Henrique Cardoso e a sua corja que nunca mais ou se duvidar da capacidade de organização da sociedade civil brasileira". Sobre os policiais que estavam guardando os prédios dos ministérios, próximos da manifestação, disse: "Não vamos quebrar o que nós construímos e logo, logo seremos nós que ocuparemos esses prédios", insinuando que chegariam ao poder (há poucos meses, quando recebeu Lula no Palácio do Alvorada, o presidente disse a ele, brincando, que aquela seria a futura residência). "Fernando Henrique pode mandar a PM almoçar porque nós somos de paz."
Mas acrescentou: "Se este fosse o último movimento, eu diria: Vamos quebrar." Lula acusou Fernando Henrique de ser "uma marionete na mão dos especuladores internacionais". "Os gringos chegaram e compraram as estatais com o dinheiro do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimeno Econômico e Social)." Desculpou-se com Brizola, que, mais uma vez, pedira a renúncia do presidente: "Eu discordo da renúncia, isso é um gesto de grandeza que Fernando Henrique não tem."
Brizola foi direto ao assunto, ao abrir o discurso: "O que o Brasil reclama é a necessidade da renúncia desse homem que está aí."
Ele acrescentou: "Eu sei que é difícil, mas não é impossível." Brizola disse que, a partir da Marcha dos Cem Mil, o presidente "vai começar a pensar diferente". O presidente nacional do PDT disse discordar dos que lhe dizem "Vamos com calma". "Eu não estou de acordo porque, quando se tem a barriga vazia, não dá para esperar com calma as mudanças e transformações."
Stédile foi mais abrangente: "Não viemos só para mudar o governo; o fato é que o povo não aguenta mais o Fernando Henrique." Pregou a mudança do governo e do modelo econômico e o confisco "dos R$ 7 bilhões que os bancos ganharam" do governo. "Com essa dinheirama", quer criar postos de trabalho, atendimento de saúde e educação gratuitos e financiamento para a pequena e média empresa.
"Essa marcha não é o fim, mas o começo de um grande movimento de massa para organizar o povo", disse. Stédile pregou a volta dos manifestantes aos municípios para preparar manifestações populares para o dia 7.
O líder do MST previu que "serão cem mil em cada capital". Um outro ato, em que sem-terra e outros movimentos promovem caminhada pelo País - a Marcha Popular pelo País - deve chegar em 8 de outrubro a Brasília. Para a data, Stédile diz que será proclamada greve geral. Os movimentos, segundo ele, vão derrubar "o bando de canalhas que tomou conta do País".
Vicentinho respondeu a acusação de lideranças do governo de que a marcha pedir a saída de Fernando Henrique ("Fora FHC") seria golpe.
"Golpe foi a farsa vista em Eldorado dos Carajás (onde a PM matou 19 sem-terra). Incluiu também a emenda à Constituição que permitiu a reeleição do presidente. Amazonas gritou um "Fora FHC" no fim do discurso. No começo, considerou que "triste é o povo que se mantém apático diante do avassalamento de sua pátria".
O presidente nacional do PT, deputado José Dirceu (SP), considerou a marcha de hoje "a maior manifestação popular do Brasil". "Ela é um pé no traseiro do latifúndio no País." Frei Betto fez um minuto de silêncio em protesto contra a absolvição de oficiais da PM acusados pelas mortes de Eldorado dos Carajás (PA). O sindicalista Manoel dos Santos, da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), disse, nos discurso: "O povo não vai deixar que Fernando Henrique continue nos conduzindo no escuro com esse governo ilegítimo."
Um outro presidente de partido, José Maria de Almeida, do PSTU, estendeu o movimento de hoje para além das fronteiras do País. "Essa luta é a mesma que a dos irmãos da Colômbia, Equador e Venezuela contra os Estados Unidos, que querem intervir numa nação da América Latina", disse, referindo-se à Colômbia.
Vicentinho fez o mesmo, em outro contexto. Anunciou que, em 12 de outubro, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) vai promover um ato nacional de combate à exclusão, "com nossos irmãos da Argentina, Bolívia, Uruguai e Paraguai".


