Líderes do sequestro de Diniz já estão na Argentina
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quinta-feira, 01 de julho de 1999
Por Marcelo Godoy 
São Paulo, 02 (AE) - Os líderes do sequestro do empresário Abílio Diniz, os irmãos argentinos Humberto e Horácio Paz, foram transferidos hoje para a Argentina. Dez anos depois de a prisão em flagrante do grupo e a libertação do empresário ter mobilizado a polícia paulista, uma escolta de apenas seis policiais federais levou os presos ao Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, na Grande São Paulo. Sem algemas, foram entregues a cinco policiais argentinos. O grupo embarcou num avião que decolou para Buenos Aires às 13h07.
Humberto levava parte de suas coisas em uma sacola de plástico do supermercado Pão de Açúcar, de propriedade de Diniz. No avião, fizeram a primeira refeição após 13 dias de greve de fome - comeram bananas, atendendo a orientação médica. Essa foi a terceira greve em pouco mais de um ano feito pelos sequestradores. A mais longa delas começou em novembro e terminou em janeiro, após 46 dias, um recorde em prisões brasileiras. O protesto reivindicava a transferência para a Argentina nos termos de um tratado assinado pelo Brasil com aquele país.
Os Paz chegaram à Argentina às 15h30. No aeroporto de Ezeiza eram esperados por cerca de 40 pessoas, entre parentes e representantes de órgãos de Direitos Humanos. Eles eram os últimos que permaneciam presos em São Paulo, no Centro de Observação Criminológica (COC), no Carandiru. Os dois canadenses e os cinco chilenos já tinham sido transferidos para seus países de origem. O único brasileiro do grupo, Raimundo Rosélio Costa Freire, foi enviado para o Ceará, sua terra natal, onde recebeu o direito à liberdade condicional. Hoje, Raimundo acompanhou, por telefone, a transferência dos amigos para a Argentina, onde os Paz cumprirão o restante de suas condenações pelo crime - 17 anos e 10 meses para Horácio e 18 anos e 10 meses para Humberto.
Pouco antes de a Polícia Federal apanhá-los no COC, os irmãos foram examinados por médicos. Constatou-se que eles tinham condições para viajar. Durante a greve, emagreceram pouco mais de 7 quilos. Às 8 horas, o comitê de apoio aos presos divulgou a íntegra da carta de despedida dos líderes do sequestro. Além de reafirmar a motivação política do crime - usar os US$ 30 milhões do resgate pedido para financiar a guerrilha de El Salvador -, disseram que: "não nos arrependemos por termos jogado nossas vidas na solidariedade à revolução". Filho - Mais uma vez, desculparam-se pelos prejuízos causados à candidatura à Presidência da República de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no segundo turno das eleições de 1989. Do lado de fora da prisão, havia apenas alguns simpatizantes e o filho de Humberto, Carlos Paz. Enrolado em uma bandeira da Argentina, acompanhou a escolta até o embarque. No aeroporto, os dois sequestradores já estavam sendo esperados pelos policiais argentinos e pelos funcionários do consulado desse país em São Paulo.
O vôo, previsto para sair do aeroporto às 12h40, atrasou-se. Enquanto isso, o avião foi cercado pelos agentes federais. Os sequestradores embarcaram pela escada de serviço. Durante a decolagem, os simpatizantes comemoraram o que consideraram uma vitória. No ano passado, antes da primeira greve de fome, os dez sequestradores estavam na cadeia. Pouco mais de um ano depois e após a pressão exercida sob o governo brasileiro pela greve, pelo Chile, Argentina e Canadá, todos foram enviados aos seus países e até o brasileiro ganhou liberdade condicional.
No aeroporto, o advogado Eduardo Soares disse que ingressa na segunda-feira com pedido para que seja concedido o benefício da liberdade transitória, o que permitiria aos irmãos sair do prisão durante o dia e voltar à noite para dormir. Posteriormente, Soares solicitará a liberdade condicional para eles. De Ezeiza, onde fica o aeroporto, os dois foram levados à sede dos Tribunais, em Buenos Aires. Lá, um juiz decidiria sobre o pedido de internação dos irmãos Paz no hospital da Penitenciária de Villa Devoto, onde devem cumprir o restante de suas penas.


