Líderes do MST são acusados de vender lotes da reforma agrária em Alagoas; eles negam
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sábado, 08 de abril de 2000
Por Ricardo Rodrigues, especial para a AE 
Maceió, 09 (AE) - Dois líderes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) de Alagoas, Marcos Antônio da Silva (Marron) e Irisvalda Bomfim, estão sendo acusados de vender de lotes da reforma agrária no Estado. As denúncias foram feitas por técnicos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e confirmadas hoje por integrantes movimento dos assentamentos Flor do Mundaú e Eldorado dos Carajás. Marron e Irisvalda negam as acusações e dizem que estão sendo vítimas de revanche por parte dos técnicos do Incra.
O coordenador fundiário do Incra, José Monteiro, foi o primeiro a denunciar Marron e Irisvalda. "Faço questão de dizer que expulsamos os dois do assentamento Eldorado dos Carajás", disse Monteiro. Segundo ele, Marron foi expulso porque tinha abandonado um lote no interior de Sergipe e não fazia suas terras produzirem em Alagoas. Irisvalda porque transferiu a terra para um irmão, conhecido por Josito Bonfim, sem comunicar nada em assembléia aos demais assentados. "Depois de arrumar diversas confusões no assentamento, vendeu o lote que estava no nome da irmão e desapareceu", afirma o coordenador fundiário do Incra.
A denúncia de Monteiro foi confirmada pela maioria dos assentados e por dois técnico agrícolas, Alexandre do Couto e José Gomes, contratados pela Central Estadual de Assentamentos de Pequenos Produtores (Ceapa), para dar assistências aos assentados da região de União dos Palmares, a 94 quilômetros de Maceió. Nos assentamentos, ex-companheiros de ocupação também acusam Marron e Irisvalda de terem vendido terras da reforma agrária em Sergipe e Alagoas, além de ficarem com parte do dinheiro destinado à melhoria de condições de vida nos assentamentos.
A acusação mais grave partiu do ex-presidente da Associação dos Assentados de Eldorado dos Carajás, Antônio Carlos Lima e Silva. "Tenho como provar que Marron é um aproveitador do MST. Ele não tem moral para acusar ninguém de vender terras em assentamentos. Ele tem raiva da gente porque ajudamos a expulsá-lo daqui", afirmou Silva. "O lote dele, acrescenta, referindo-se a Marron, era totalmente improdutivo; hoje produz frutas, verduras e raízes porque está nas mãos de um verdadeiro agricultor, que era sem-terra, o senhor Antenor Pedro da Silva". Defesa - Marron confirmou ter participado, junto com 37 famílias
da ocupação de uma fazenda no município de Nossa Senhora do Socorro, em Sergipe. "Depois dessa ocupação, como o movimento estava crescendo em Alagoas, o MST decidiu me transferir. O lote que era meu eu deixei para outro trabalhador rural", garantiu. Marron chamou de "mentirosas" as acusações de seus ex-companheiros dos assentamentos Flor do Mundaú e Eldorado dos Carajás. Também desafiou os ex-companheiros e técnicos do Incra a provarem que ficava com parte do dinheiro destinado aos assentados.
No assentamento Flor do Mundaú existem 99 lotes. O líder da comunidade, José Maria da Silva, estima que 30% desse lotes estão nas mãos de pessoas que nunca foram sem-terra: são capatazes ou testa-de-ferro de vereadores, ex-prefeitos, empresários e latifundiários da região. Em Eldorado dos Carajás são 143 lotes. Nas contas do tesoureiro da Associação dos Assentados, Francisco Ferreira da Silva, pelo menos 10% desses lotes foram "transferidos" para pessoas que nunca foram militantes do MST. Os dois assentamentos são cobiçados porque possuem as melhores terras da região.
Um dos acusados de vender terras do assentamento Eldorado dos Carajás é o líder da Comissão Pastoral da Terra (ligada á Igreja Católica), José Severino, mais conhecido como "Índio". Seus companheiros de assentamento garantem que Índio passou para a Pastoral da Terra porque foi expulso do MST, depois que vendeu seu lote a um vereador do município de Branquinha, a 70 quilômetros de Maceió. O caso está sendo investigado pelo Incra, que suspeita de 40 transações ilegais de terras da reforma agrária, na Zona da Mata de Alagoas.
O instituto já constatou que os vereadores Cláudio Calado (PTB) e João Anísio (PPB), de Branquinha, e um outro vereador de Murici (cujo nome não foi revelado), além do funcionário público Emerson Frota Vegetti de Siqueira, sobrinho do prefeito de União dos Palmares, Afrânio Vegetti (PSDB), estão entre os que compraram terras em Flor do Mundaú e Eldorado dos Carajás. Segundo as investigações, os valores dos lotes variam de R$ 20 mil a R$ 25 mil. Os vereadores não foram localizados pela reportagem. Um parente do vereador João Anísio confirmou a transação, dizendo que foi feita em nome de uma testa-de-ferro.


