Bruxelas, 16 (AE-REUTERS) - Estados da União Européia buscavam hoje (16) preencher o vazio político deixado pela renúncia em massa de uma humilhada Comissão Européia e forçar reformas radicais no desacreditado corpo executivo do bloco.
Todos os 20 membros da executiva da UE renunciaram na madrugada de hoje depois que um painel de especialistas independentes os acusou de perder o controle da imensa burocracia de Bruxelas e fazer vista grossa para fraude e cronismo generalizados.
O chanceler alemão, Gerhard Schroeder, que como presidente da UE tem de resolver a crise no topo da inchada burocracia da Europa, disse que os líderes da UE tentarão nomear um sucesso para o presidente da comissão, Jacques Santer, numa cúpula em Berlim na semana que vem.
Depois de conversações em Londres com o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, Schroeder afirmou a jornalistas que uma posterior cúpula informal pode ser necessária depois da de Berlim para finalizar a escolha.
"A Europa tem de permanecer capaz de agir", disse ele.
Blair acrescentou: "A situação tem mudado dramaticamente e temos de agir".
Um amargurado Santer lançou mais cedo uma contra-ofensiva, depreciando o relatório dos especialistas como sendo "chocante e não-balanceado". Ele disse que ele era "mais transparente do que água" e iria permanecer como chefe do executivo até que governos nacionais buscassem substituí-lo.
Blair afirmou que a reação de Santer era "totalmente inadequada" e pediu a ele para abandonar o cargo rapidamente a fim de abrir caminho para um "verdadeiro peso pesado político" com um novo contrato e um mandato para fazer reformas.
Blair disse que iria pressionar por reformas no executivo da UE - não eleito e que quase não presta contas de seus atos -, que escreve e implementa as leis da UE.
O presidente francês, Jacques Chirac, afirmou que a UE deveria aprender com a "crise sem precedentes" e reformar suas instituições a fim de torná-las mais efetivas, responsáveis e mais próximas ao povo.
A França pediu por um executivo mais forte, com menos comissários, e insistiu que a ampliação da UE deveria ser postergada até que fossem definidas as reformas.
Enquanto alguns comissários uniram-se a Santer expressando suas frustrações com o ataque direto do relatório ao executivo, outros pediram por profundas mudanças culturais.
O vice-presidente Sir Leon Brittan disse a um comitê do Parlamento Europeu que a comissão deveria aceitar as conclusões do relatório e concentrar-se na resposta às acusações.
"Não acho que é o momento de censurar o conteúdo do relatório. O que é preciso agora é uma ampla reforma a fundo da comissão", afirmou.
Brittan disse que alguns programas da UE que sofreram com falta de recursos deveriam ser cortados, procedimentos disciplinares internos reforçados e consultores externos chamados para rever as estruturas da administração.
As tentativas da agora comissão "em exercício" de tentar mostrar que tudo continua normal foram rechaçadas pelo presidente do Parlamento Europeu, Jose Maria Gil-Robles, que exigiu que a equipe saia de cena.
"Eles têm de partir agora e não daqui a nove meses", afirmou Gil- Robles numa entrevista coletiva.
Ele acrescentou que os cidadãos europeus nunca irão entender se a comissão for mantida no posto sem mudanças até o fim do ano apenas "porque os chefes de Estado e governos não são capazes de concordar em nomes de sucessores".
Governos nacionais irão discutir suas opções para nomear uma nova comissão nos próximos dias e semanas enquanto tentam abafar uma crise justo no momento em que a UE reorganiza suas finanças numa preparação para uma ambiciosa expansão para o leste.
Enquanto Grã-Bretanha e Alemanha pedem por mudanças urgentes, Itália e Espanha afirmaram que Santer e sua equipe deveriam cumprir inteiramente seu mandato que expira em janeiro próximo.
Diplomatas da UE disseram que, legalmente, a UE poderia não apontar uma nova comissão para começar um mandato de cinco anos antes do prazo final de janeiro de 2000.
O relatório de 144 páginas dos especialistas cataloga grosseiras irregularidades na administração de programas e fundos sob custódia da comissão, ao mesmo tempo que acusa a comissária de pesquisa e ex- primeira-ministra francesa Edith Cresson de favoritismo.
A moeda da UE, euro, que inicialmente perdeu valor com as notícias da renúncia, ganhou fôlego hoje e no fim do dia tinha ganho cerca de um centavo em relação ao dólar, sendo cotada por pouco menos de US$ 1,10.

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