Líderes da Otan decidem intensificar campanha aérea e embargo contra Belgrado
Washington, 23 (AE) - Reunidos na capital norte-americana para celebrar o cinquentenário de uma aliança militar defensiva cujo futuro foi subitamente colocado em jogo pela guerra nos Balcãs, os líderes dos 19 países membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) decidiram nesta sexta-feira (23) intensificar a campanha aérea iniciada no mês passado contra a Iugoslávia e o embargo econômico contra Belgrado, cortando seus suprimentos de petróleo.
Eles reafirmaram também que estão unidos em seu propósito de impedir que "a campanha de terror" do regime do presidente Slobodan Milosevic contra a população de origem albanesa de Kosovo tenha êxito. "A OTAN está determinada a prevalecer", disseram eles num comunicado de 17 pontos divulgado após três horas de reunião.
Como previsto, o possível envolvimento de tropas terrestres não foi mencionado no documento, embora tenha sido tratado nas discussões e recebido um primeiro endosso implícito através do apoio que o secretário-geral da Otan, o espanhol Javier Solana, recebeu dos líderes para encomendar dos generais uma revisão das opções militares.
Paralelamente, a OTAN manifestou-se pronta, pela primeira vez, a suspender os bombardeios mediante a aceitação incondicional por Milosevic de cinco condições inegociáveis: a cessação imediata da violência contra os kosovares; a rápida retirada da província de todos as forças militares, paramilitares e policiais sérvias; a aceitação de uma força militar internacional em Kosovo; a aceitação do retorno de todos os refugiados que deixaram a província e o acesso desimpedido de organizações humanitárias aos que permaneceram; e uma manifestação genuína e verificável da disposição de Belgrado de cooperar para uma solução da questão de Kosovo nos termos previstos pelo acordo de Rambouillet, que contemplava a possibilidade de independência futura da província e foi, por essa razão, rechaçado pelo presidente sérvio, no início do mês passado.
Num gesto igualmente significativo, os chefes de governo da Otan afirmaram que, no quadro de uma aceitação incondicional por Milosevic das condições para um cessar fogo, a organização buscará o respaldo do Conselho de Segurança das Nações Unidas para suas ações após o conflito propondo uma resolução que imponha a retirada das forças sérvias de Kosovo, a desmilitarização da província e o estabelecimento de uma administração internacional provisória com a presença de uma força militar internacional para garantir o retorno e o reassentamento seguro dos kosovares a suas casas, com autonomia substancial dentro da Iugoslávia.
O bombardeio da Iugoslávia vem sendo criticado mesmo por governos que afirmam concordar com seus méritos da ação, como o Brasil e outros países da América Latina, pela ausência de uma decisão internacional legitimadora do ataque.
O comunicado afirma que "a Otan está pronta para formar o núcleo" de uma força internacional, que seria multinacional e contaria com a participação de países que não são membros da Aliança Atlântica.
Na noite da quinta-feira, o presidente Bill Clinton disse que aplaudiria a participação da Rússia e da Ucrânia numa força internacional em Kosovo. O presidente norte-americano lembrou que os russos estiveram envolvidos em todo o processo de busca de uma solução diplomática, antes de Milosevic rejeitar o acordo de Rambouillet, e que soldados russos integram a força internacional que garante a paz na Bósnia, sob a bandeira da ONU.
A preocupação de valorizar a participação russa numa solução do conflito ficou clara nas declarações de outros líderes. O presidente da França, Jacques Chirac, por exemplo, rejeitou em nome da Aliança a abertura feita por Milosevic, por intermédio do ex-primeiro-ministro da Rússia, Viktor Chrenomyrdin, que visitou Belgrado na quinta-feira.
A oferta do líder sérvio de aceitar uma força internacional em Kosovo foi classificada de "totalmente insuficiente" por Chirac. Mas o presidente francês preocupou-se em esclarecer: "Não estou dizendo que (a iniciativa) não seja útil", disse.
Na mesma linha, o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, manifestou-se cautelosamente otimista com a iniciativa de Chernomyrdin. "Se (a oferta) de Milosevic for uma indicação de que Milosevic está tomando consciência de que nós continuaremos a atacar até que as condições sejam atendidas, então ela é algo que deve ser notado."
Durante a reunião, os líderes ouviram um relato sobre o andamento do bombardeio dos chefes militares da Otan, numa reunião a portas fechadas. Segundo um alto funcionário americano presente, o general Wesley Clark, comandante supremo da Aliança na Europa, garantiu que "nós estamos ganhando e ele (Milosevic) está perdendo".
Um outro alto funcionário americano informou também que os 19 líderes mostraram-se mais unidos em relação aos aspectos militares do comunicado do que nos tópicos sobre pressões econômicas contra os sérvios. Houve vozes contrárias, por exemplo, à proposta dos Estados Unidos para bloquear no mar carregamentos de petróleo destinados à Iugoslávia.
E o primeiro-ministro da Grécia, Costas Simitis, fez questão de registrar seu desconforto sobre o própria campanha aérea, afirmando que a continuação dos bombardeios por muito mais tempo alimenta um sentimento anti-Otan em seu país. "Quanto mais longa for a guerra, maiores serão os problemas", disse ele.
No início da tarde, o secretário-geral da OTAN presidiu a cerimônia formal de comemoração dos 50 anos da organização dando as boas-vindas aos líderes dos três novos membros admitidos recentemente - Polônia, República Checa e Hungria.
Solana disse que os objetivos que inspiraram a Otan no passado são os mesmos que guiam suas ações hoje contra a Iugoslávia e continuarão a orientar a Aliança no futuro.
Com o número de países representados ampliado para 42, para incluir países que já mantém vários tipos de associações com a Otan ou buscam tornar-se membros no futuro, a cúpula tratará amanhã e domingo da agenda elaborada para a reunião antes do conflito nos Balcãs. Esta prevê a discussão de um novo conceito estratégico para a organização no pós-guerra fria, programas para a inclusão de novos membros e fortalecimento das relações de cooperação com seus ex-inimigos, ou seja, a Rússia e as antigas repúblicas sovíeticas.
A guerra na Iugoslávia continuará sendo, no entanto, a preocupação central dos chefes de estado e de governos, de seu séquito de mais de mil funcionários e dos três mil jornalistas mobilizados para cobrir o evento numa cidade que acordou hoje com o centro esvaziado por um feriado federal decretado para facilitar o enorme esquema de segurança montado para proteger os líderes da aliança.





