Líderes chineses têm de lidar com a crescente "onda cinzenta"
Líderes chineses têm de lidar com a crescente "onda cinzenta"16/Mar, 12:35 Por John Leicester Pequim (AE-AP) - Os ressequidos traços do rosto de Yang Wenxiu contam histórias de momentos históricos da China. Aos 76 anos ela viveu a era militar chinesa, a vitória comunista, os primeiros anos cheios de esperança do regime e o renascimento em relação ao arruinante radicalismo de Mao Tse-tung. Agora, a aposentada trabalhadora da fábrica de papel passa seus dias num pequeno quarto escuro num asilo para velhos. Tradicionalmente, Yang receberia cuidados e moradia de seu filho. Mas ele tem diabetes e sua própria família e ela quer tornar mais leves seus encargos. "Eles vivem as vidas deles e eu vivo aqui, o que diminui a carga sobre ele", diz Yang, sentada, cobertas por várias roupas em sem quarto sem janelas. "Dessa forma é melhor para ele". Yang é parte de uma tendência nascente, uma visão de como a China vê seu futuro que embranquece rapidamente: uma sociedade na qual um crescente exército de aposentados tem pensões seguras e, quando suas famílias não se importam com eles são cuidados em asilos bem administrados. Mas chegar a este padrão em todo o país não será fácil. Muitos países, dentre eles os EUA e outras nações desenvolvidas, têm de lidar com o envelhecimento de suas populações. Mas na China o problema é ainda maior devido à pobreza, ao imenso número de pessoas envolvidas e à velocidade com que a população está envelhecendo. Hoje, cerca de 126 milhões de chineses, um em cada dez habitantes, tem 60 anos ou mais. Isso é o equivalente á população total do Japão e é a maior população idosa do mundo. Em 2030, cuidar de uma população de idosos que deve chegar a 300 milhões poderão consumir 10% da renda nacional chinesa. As projeções indicam que em 2045 as China terá 400 milhões de idosos, um para cada quatro habitantes, criando pressões econômicas, sociais, emocionais e de cuidados médicos que podem complicar a condução da China para o grupo das nações desenvolvidas. Jornais estatais chamam o fato de "onda cinzenta". As taxas de suicídio entre idosos estão preocupantemente altas, já que algumas pessoas escolhem a morte em vez da solidão ou do empobrecimento de suas famílias devido às altas contas médicas. As tradições confucionistas de respeito aos velhos estão perdendo a importância entre os jovens chineses, educados com fast-food e rock. Protestos de aposentados devido a benefícios não pagos são comuns. A popularidade do movimento espiritual Falun Gong destacou alguns dos perigos. Ao prometer uma saúde melhor, a seita atraiu aposentados que lutam contra os crescentes custos médicos. Quando o movimento, que conta com milhões de membros, tornou-se muito grande e organizado, o governo fez dele uma seita proscrita e deteve milhares de seus membros, gerando críticas internacionais. Por enquanto a China está se apoiando na tradição dos cuidados familiares com os velhos, enquanto estimula empresas privadas, dentre elas estrangeiras, a abrir asilos. As políticas também estão sendo traçadas de modo a encorarjar o crescimento da indústria de cuidados geriátricos, fundos de pensão estão sendo remodelados e alguns acadêmicos estão exigindo que o governo considere a hipótese de administração estrangeira para as aposentadorias. Em Xangai, onde quase uma em cada cinco pessoas tem 60 anos ou mais, a American International Assurance vem vendendo seguros de vida desde 1992. Outras empresas de capital estrangeiro fizeram o mesmo e esperam a entrada da China na OMC para promover a abertura neste mercado fortemente controlado. Neurotech, uma empresa cuja matriz fica em Manhasset, Nova York, e que vende hospitais totalmente equipados, está construindo um hospital geriátrico no valor de US430 milhões na província sulista de Guangdong, que irá atender a 30 mil pessoas. Algumas cidades estão treinando desempregados para que se tornem auxiliares nos cuidados dos idosos em suas casas, preparando comida para eles, fazendo as compras e outras pequenas tarefas . Cerca de 70% dos idosos chineses, particularmente em áreas rurais, continuam a viver com seus filhos ou parentes, enquanto menos de um milhão vivem em asilos. Mas a demanda por mais asilos está crescendo rapidamente. Muitos jovens são muito ocupados para cuidar de seus idosos ou trabalham muito longe deles. Casais jovens também desejam cada vez mais viver longe de seus pais. "Na China, costumava ser tradição 'criar as crianças como seguro para a velhice'. Mas nestes dias, cuidar dos filhos não é mais uma garantia porque filhos e filhas precisam trabalhar", disse Zheng Yanhua, administrador do asilo onde Yang vive. "Num longo prazo, há um grande mercado para asilos". O problema do envelhecimento da China é, em parte, uma punição do seu passado. A guerra civil que levou os comunistas ao poder em 1949 foi seguida de uma década abastecida por uma grande aumento no número de bebês. Mao, o líder da revolução, encorajou o crescimento da população, acreditando que isso faria da China um país forte. E uma explosão ainda maior do número de nascimentos seguiu-se na década de 60. Agora, estas pessoas que fomentaram o crescimento populacional estão se aposentando. Mas devido às políticas de planejamento familiar forçadas depois da morte de Mao em 1976, muitos têm apenas uma criança. Isso cria o que os especialista chamam de famílias "4-2-1", quando filhos únicos enfrentam a assustadora possibilidade de cuidar de seus pais e quatro avós. "As crianças nascidas nos anos 70 já enfrentam este problema, disse Zheng. "As pressões do trabalho e da vida sobre eles são muito grandes. Eles não podem tolerar a sobrecarga". Aberto em setembro por oficiais locais num subúrbio industrial de Pequim, o asilo onde Zheng trabalha tem 76 leitos, com os preços básicos oscilando de 550 iuans a 1.500 iuans (US$ 65 a US$ 180), com refeições incluídas. Alguns dos quartos mais luxuosos possuem cozinhas e banheiros. O de Yang, o mais barato, tem três camas e o guarda-roupa é dividido. Yang paga sua permanência no local com os 600 iuans (US$ 72) de aposentadoria mensal. "Eu faço três boas refeições por dia, leio os jornais, passeio pelo jardim e, de vez em quando, saio para comprar algumas coisas", diz ela. "Cada dia vivido é um dia a menos, por isso eu compro tudo o que gosto, caquis, frutas". Mas poucos no interior, onde vivem a maioria dos 1.2 bilhões de pessoas, recebem o benefício. A maioria continua trabalhando, colhendo frutos e cuidando dos animais, enquanto aguentam. Então, passam a depender do cônjuge e da família. Este estado das coisas ainda vai continuar por muitos anos", diz Xiao Zhenyu, vice-diretor do Centro de Pesquisa do Engenhecimento da China. "As fundalções da economia da China ainda são muito fracas. Vai ser muito difícil para o Estado cuidar de todos os idosos". Para firmar as redes familiares, a China aprovou uma lei em 1996 ameaçando com punições os filhos que abusarem ou negligenciarem seus pais. O governo, enquanto isso, encoraja os idosos a manterem a boa forma e aos viúvos a se casarem novamente, de forma que possam prestar apoio mútuo na velhice. Nos subúrbios de Xangai, funcionários do governo juntaram-se às iniciativas locais e fizeram com que as pessoas assinassem contratos comprometendo-se a sustentar seus pais, disse Sun Changmin da Academia de Ciências Sociais da cidade. "Alguns filhos e filhas não estão dispostos a cuidar dos seus pais. Eles acham que já são sufucientemente sobrecarregados", diz ele. Mas depis de assinarem os contratos, "se filhos e filhas deixar de cuidar de seus pais em idade avançada, o governo pode processá-los".





