Brasília, 05 (AE) - Os líderes do PFL, Inocêncio Oliveira (PE), do PSDB, Aécio Neves (MG), e do PPB na Câmara, Odelmo Leão (MG), alertaram hoje o secretário-geral da Presidência da República, Aloysio Nunes Ferreira, de que o presidente Fernando Henrique Cardoso terá de reconquistar a base parlamentar no Congresso, muito mais do que uma simples reconciliação com os líderes partidários que apóiam o governo.
No café da manhã realizado num hotel de Brasília, que também teve a participação do líder do governo, Arnaldo Madeira (PSDB-SP), o descontentamento com o governo foi o assunto principal. "Estou desiludido com o governo", afirmou o líder do PMDB, Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), logo depois da reunião. Na noite anterior, o deputado peemedebista havia conversado com Fernando Henrique. "Observo um grande descontentamento dentro da minha bancada", advertiu o líder, acrescentando que tinha feito esse alerta ao governo.
Geddel lembrou que voltou assustado da Bahia, depois de passar um mês junto ao eleitorado, durante o recesso parlamentar. "O governo sabe que enfrenta um momento difícil de popularidade e a tendência é de um apoio decrescente", constatou. Ele foi além, lembrando que o descontentamento das ruas contaminou as bancadas aliadas, até mesmo a do PMDB. Ele também não vê muita escolha para reverter esse quadro dentro do partido.
"Não temos recursos para trabalhar a bancada, não há novos investimentos públicos, a inflação está voltando, a estrutura do País está degenerando-se e a política econômica é recessiva", comentou Geddel, enumerando alguns dos principais problemas que fazem o governo perder apoio. Ao mesmo tempo, ele também citou os "baixos salários" dos deputados como mais um motivo de descontentamento no parlamento. "Vamos deixar de farisaísmo; afinal, os salários são aviltantes", avaliou Geddel. Atualmente, o salário bruto de um deputado é de R$ 8 mil.
Diante desse quadro, o deputado peemedebista afirmou: "Está chegando um momento que eu terei de escolher entre o apoio ao governo e a minha bancada; e eu não terei dúvida de que estarei com os deputados do meu partido", alertou Geddel. Essa advertência provavelmente seria um dos principais assuntos do jantar que o presidente nacional do PMDB e líder do partido no Senado, Jáder Barbalho (PA), iria ter na noite de hoje com Fernando Henrique. "O recado já foi dado e não quero mais me tornar inoportuno", disse Geddel. "Até porque tenho mais medo do ridículo do que da morte."
A avaliação dentro do PMDB é de que o presidente se distanciou do parlamento depois da reforma ministerial. Isso porque não consultou os partidos, a não ser o grupo paulista do PSDB. "Para completar esse afastamento do governo com a base, colocou uma equipe de coordenadores políticos exclusivamente tucana, dificultando uma interlocução partidária com os deputados", avaliou um cacique do partido.
Muito mais do que independência, os partidos começam a lavar as mãos em relação às iniciativas do governo. Não é só no PMDB que está acontecendo isto. Na reunião da Executiva do PFL, também realizada na manhã de hoje, chamou atenção o depoimento do governador do Amazonas, Amazonino Mendes (PFL).
Na reunião, Mendes cobrou uma posição própria do partido sobre os temas que estão sendo discutidos. "Não estou conseguindo corresponder às expectativas da população", afirmou o governador do Amazonas. A avaliação de Mendes repercutiu no partido. "Toda a crise gera oportunidade; portando, o PFL tem esse momento para fazer uma definição mais clara sobre suas posições", analisou o vice-presidente do partido, senador José Jorge (PE). Também defendeu uma posição semelhante o secretário-geral do PFL, deputado Manuel Castro (BA). "Estamos sentindo uma desesperança na sociedade", avaliou. Outra preocupação crescente entre os partidos da aliança é com a sucessão municipal de 2000. Sem recursos e investimentos, os parlamentares começam a demonstrar desespero com o resultado que poderá sair das urnas em 2000. Por isso, os partidos começam a assumir uma postura de distanciamento cada vez maior de Fernando Henrique. O maior exemplo aconteceu hoje, quando, no discurso para apresentar o fundo de combate a pobreza, o presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), criticou até o ministro da Fazenda, Pedro Malan.
Fernando Henrique faz piadas com o tema. Na noite de ontem (04), quando participava de um jantar na casa do senador Jorge Bornhausen (PFL-SC), o presidente estava descontraído. Ao perceber a presença do vice-presidente da Câmara, Heráclito Fortes (PFL-PI), numa roda de políticos, ele aproximou-se. Fortes, que estava de costas, foi surpreendido com uma provocação do presidente. "Será que até você está acreditando que a minha popularidade está baixa?", disse Fernando Henrique. O jantar era em homenagem ao aniversário da conselheira do Comunidade Solidária Fernanda Bornhausen, filha do dono da casa. Na festa, chamou a atenção a boa relação entre ACM e Fernando Henrique, que, momentos antes, tiveram uma conversa de reconciliação no Palácio da Alvorada. ACM também conversou com a primeira-dama Ruth Cardoso. O presidente saiu da festa durante o jogo do Brasil contra o México, pela Copa das Confederações.

mockup