Lideranças tentam reagrupar manifestantes dispersados pela PM
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sexta-feira, 21 de abril de 2000
Por Biaggio Talento 
Santa Cruz Cabrália, BA, 22 (AE) - As lideranças sindicais e parlamentares de partidos de esquerda passaram a tarde de hoje tentando reagrupar os manifestantes que se dispersaram com o ataque da tropa de choque da Polícia Militar à Marcha Indígena e libertar os 141 presos no primeiro confronto, do início da manhã. Três procuradores do Ministério Público Federal deram apoio, tentando restabelecer a ordem institucional com a libertação dos manifestantes. Somente por volta das 14h45, com a chegada do juiz Airto Pinheiro, da comarca local, a situação se normalizou.
O clima ficou tenso principalmente por causa da intransigência do coronel Muller, que comandava a tropa de mais de mil homens em Cabrália. Após dispensar os três mil integrantes da Marcha Indígena, com bombas de gás lacrimogêneo e muita violência, os policiais perseguiram os militantes das mais diferentes entidades (Movimento Negro unificado, União Brasileira dos Estudantes, Grupo Tortura Nunca Mais, diversos sindicatos, punks e anarquistas) no Hotel Ticino, na saída de Cabrália. Eles ficaram sitiados por mais de três horas, temendo a invasão dos policiais armados de cacetetes e revólveres, que se posicionaram do lado de fora. Entre os manifestantes estava o professor mineiro Ernande Pereira, que se sentiu mal por causa do gás lacrimogêneo e teve duas convulsões.
Algumas lideranças tentavam convencer o coronel Muller a retirar a tropa e deixar os militantes saírem, mas ele insistia em prender todos. Enquanto negociava, um integrante do Conselho Indigenista Missionário (SIMI) se preparou para tirar uma foto do militar, provocando uma reação violenta. "Só quem tira foto minha, é minha mulher e minha filha, se você fizer isso eu lhe prendo", ameaçou. Logo depois, o militar foi até o hotel e exigiu que os refugiados deixassem o local.
"Eu dito as regras por aqui, vocês vão sair em fila indiana e ficar na lateral do hotel prá saber se poderão ser liberados." Parte dos manifestantes protestou, posição reforçada pelo deputado federal Haroldo Lima (PCdoB-BA), que acabara de chegar. "Isso é uma humilhação", reclamou. Enquanto isso o dono do hotel implorava para as pessoas saírem, pois a situação estava causando um grande transtorno aos hóspedes.
Aos poucos, foram chegando ao hotel outros parlamentares que fizeram o trabalho de reunir os manifestantes para tirá-los de Cabrália. O deputado federal José Dirceu (PT-SP) era o mais empenhado nessa estratégia. "A gente precisa retirar o pessoal daqui imediatamente, depois iremos reclamar na Justiça pelas arbitrariedades cometidas", repetia, afirmando que o episódio era "uma vergonha para o Brasil, um estado de sítio declarado". Ele disse que os partidos da oposição vão tomar as medidas legais cabíveis e denunciar a repressão aos organismos internacionais. Dirceu estava acompanhado pelos deputados federais Nelson Pelegrino (PT-BA), Valdir Pires (PT-BA), Heloísa Helena (PT-AL) e a senadora Marina Silva (PT-AC).
Por volta das 14h30 os procuradores conseguiram levar o juiz Pinheiro até o hotel. Ele já havia liberado os presos da manifestação do início da manhã, transportados num ônibus da PM para a Delegacia de Polícia de Cabrália. Vestido informalmente, de bermuda e tênis, Pinheiro disse que não esperava o conflito ocorrido na cidade.
"Certamente houve abuso de autoridade e constrangimento de parte da polícia", disse, sem se negar a dar uma declaração política: "Acredito que a ordem (do governo) é pintar o País para inglês ver", disse. O procurador Robério Nunes revelou que o Ministério Público vai abrir inquérito para apurar os acontecimentos de Cabrália e punir os responsáveis. Ele também considerou as prisões e a proibição das manifestações como "atos ilegais".
O cerco ao Hotel Ticino foi suspenso depois que o juiz Pinheiro conseguiu entrar em contato com o coronel Muller. Os manifestantes festejaram e seguiram em passeata em direção ao local onde foi realizada a conferência dos povos indígenas, onde iriam se reunir para deixar Cabrália. Parlamentares da oposição seguiram cantando o hino das esquerdas no tempo da ditadura, "Prá não Dizer que não Falei de Flores", de Geraldo Vandré.


