"Coisa de louco foi o café", diz Anésio Sacoman, que lembra o panorama na década de 60, quando a superprodução impôs a erradicação, em contraste com as pequenas lavouras na atualidade. "Hoje, três, quatro alqueires. A gente olha, parece roça de alface." A observação, porém, não é depreciativa, porque a seguir elogia o método, o rendimento e a qualidade, mencionando cafezais no Norte Pioneiro. Quando Sacoman ingressou no Instituto Brasileiro do Café (IBC), a cafeicultura no Norte do Paraná estava no auge, crescera rapidamente.
Em apenas 20 anos, a participação do Paraná na produção brasileira aumentou de 5,78% na safra 1939/40 para a liderança, 46,88% em 1959/60. Nesta safra, o País atingiu o recorde absoluto de 44 milhões de sacas beneficiadas. Imediatamente, o apogeu paranaense: 21,4 milhões de sacas em 1961, equivalentes a 54% da safra brasileira e um terço da produção mundial.
Havia 1,281 bilhão de cafeeiros ocupando 1,830 milhão de hectares no Estado e a superprodução impôs, ainda em 1961, a criação do Grupo Executivo de Racionalização da Cafeicultura (Gerca), no IBC. No ano seguinte, o Brasil acumulava 42 milhões de sacas, suficientes para três anos de exportação, menciona Irineu Pozzobon em seu livro.
O Serviço Regional de Assistência à Cafeicultura (Serac) em Londrina era chefiado pelo agrônomo Hélio Rufino e numa etapa do programa de erradicação participaram mais de 120 estudantes de agronomia, recorda Sacoman. Fazia-se a medição das lavouras antieconômicas e o governo pagava aos proprietários para que erradicassem. A quantidade de pés variava entre 2 mil a 3 mil por alqueire, às vezes tão degradados que só tinham "varetas".
Indenizados, os proprietários ficavam impedidos de plantar café naquelas áreas durante três anos, só depois poderiam solicitar ao IBC o planejamento, que implicava novas variedades e tecnologias. O valor por cafeeiro arrancado proporcionava uma capitalização, motivo para eventuais discordâncias quanto a medições, o proprietário afirmando que a área seria maior. Lavouras residuais – havia aquelas já desaparecendo, sufocadas pelo capim amargoso e o colonião – não entravam no programa. Num desses casos, lembra Sacoman, o funcionário do IBC ouviu a insinuação de suborno. Na varanda, tendo a pastagem à frente, ele comentou a admiração ao avistar um reprodutor de raça apurada. "Acerta aquela parte, que eu te dou o boi", cochichou o fazendeiro. Normalmente, as tentativas de interferência faziam com que o funcionário interrompesse o trabalho e relatasse o fato à chefia, que designava outro para a continuidade.
Conforme o IBC/Gerca, de 1962 a 1967 foram erradicados no Paraná 249 milhões e 947 mil pés, que liberaram 307 mil hectares. Números superados por São Paulo (299,3 milhões de pés) e Minas Gerais (363,7 milhões de pés). Em todas as regiões totalizou 1,379 bilhão de pés, que liberaram mais de 1,4 milhão de hectares.
Mas o parque paranaense ainda era excessivo, segundo a visão do Gerca em 1967, indicando que o Estado ver-se-ia privado do "fator dinâmico primordial de seu crescimento" se continuasse baseado na renda de um só produto, o café, que já havia cerceado a expansão de outros setores.(W.S.)

mockup