Recife, 24 (AE) - Cerca de 200 trabalhadores sem-terra saquearam um caminhão carregado com 14 toneladas de açúcar, hoje pela manhã, na PE-45, município metropolitano de Vitória de Santo Antão, a 51 quilômetros do Recife. A ação foi comandada pelo principal líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) em Pernambuco, Jaime Amorim. Este foi o terceiro saque realizado este ano pelo MST que prevê a realização de vários outros. "A exemplo do ano passado, a ordem é ninguém passar fome", afirmou Amorim.
De acordo com o líder sem-terra, os saques não servem apenas para obter alimentos para os trabalhadores desempregados e sem-terra. "O saque é uma forma de luta contra a política de submissão do governo Fernando Henrique ao FMI", disse. "É uma forma de se escancarar ao País a miséria e a pobreza que se tenta esconder e que castiga especialmente os trabalhadores da zona canavieira nordestina".
Segundo Amorim, só porque começou a chover o governo federal já estaria pensando em acabar com as frentes de emergência. "A seca pode estar acabando, mas a situação de miséria se mantém", afirmou. Ele não teme o descrédito da opinião pública ao admitir a conotação política dos saques. "Embora o saque possa ser antipático para alguns, a gente não tem medo de correr esse risco de ser desacreditado", observou. "O verdadeiro risco que existe é o de o governo enganar o povo mais uma vez, um povo que sempre é sacrificado, um povo pobre que continua de boca calada num país dividido entre pobres e ricos". Vitorioso - O saque de hoje teve a participação dos acampamentos Bento Velho e São Francisco, que têm juntos cerca de 500 famílias de sem-terra. Para evitar que a polícia recuperasse a carga saqueada, como ocorreu em outras ocasiões, os sem-terra distribuíram o produto saqueado no meio da mata e do canavial. Até o meio da tarde a PM não havia conseguido recuperar o açúcar.
De acordo com o depoimento dado na delegacia local pelo motorista do caminhão, José Leonildo Alexandre, de 34 anos, ele foi abordado pelos sem-terra quando levava o produto, pertencente à Usina Alvorada, localizada em Vitória de Santo Antão, com destino a Palmares, na zona da Mata Sul. Ele contou que um dos trabalhadores colocou uma faca em seu pescoço, obrigando-o a entrar por um caminho desconhecido, onde descarregaram o veículo, liberando-o em seguida. A Polícia Militar foi avisada após a queixa do motorista. Não houve prisões.
Jaime Amorim disse que o açúcar saqueado será distribuído com os acampamentos próximos da região metropolitana e zona da Mata Sul. "Só nestas áreas existem 4 mil famílias acampadas", afirmou. "Vai dar um pouco, nem quatro quilos para cada um, foi um saque pequeno". Um outro caminhão foi parado pelos sem-terra na PE-45, mas como a carga era de cerâmica, foi dispensado.

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