Matão, SP, 20 (AE) - O líder nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) Gilmar Mauro pediu hoje ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) a realização de vistoria e o levantamento das dívidas da Fazenda Chimbó, em Matão, interior de São Paulo, junto a bancos e ao Instituto Nacional do Segurio Social (INSS). A fazenda está ocupada por cerca de 600 famílias desde sábado (18). A propriedade está arrendada para a usina Bonfim e os sem-terra cortaram parte da cana plantada às margens do quilômetro 315 da Rodovia Washington Luiz, onde estão montados os barracos.
O coordenador estadual do MST João Paulo Rodrigues afirma que a área da fazenda não está cumprindo a função social, pois está em desacordo com as leis ambientais e tem problemas trabalhistas. Na avaliação do MST, é preciso diversificar a produção na região para gerar empregos no campo e fortalecer a agricultura familiar. "A mecanização da colheita de cana tem causado muito desemprego, tornando mais difícil da vida dos trabalhadores rurais que moram nas cidades", disse Rodrigues. Nos últimos meses, o MST cadastrou 3 mil famílias na região central do Estado e quer que o Incra faça um levantamento de outras áreas que também estão com dívidas junto a bancos e ao INSS. "O presidente Fernando Henrique Cardoso, em reuniões com líderes do MST, deu o seu consentimento para que essas terras fossem arrecadadas em troca das dívidas e repassadas ao Incra para reforma agrária", disse Mauro. O MST também está pedindo a identificação de terras griladas, cujos títulos de propriedade estão sendo revogados pelo governo federal. No Estado de São Paulo, segundo o líder, existem 2 milhões de hectares de terras griladas.
O movimento de ocupação de terras na região tem recebido apoio logístico da Igreja e de sindicatos. "Algumas paróquias têm nos cedido espaço para as reuniões, como foi o caso do padre Noel, de Gavião Peixoto; o bispo de Ribeirão Preto (SP), com quem estivemos conversando, também se declarou favorável à reforma agrária", disse Mauro.
Os sem-terra estão preparados para um possível pedido de reintegração de posse. "Vamos contestar judicialmente, caso seja pedida a reintegração, não queremos conflito; nosso objetivo é pressionar a desapropriação de terras para a reforma agrária", declara Mauro. Caso sejam obrigados a deixar a área, eles podem ocupar outras fazendas na região.
Os sem-terra estão usando uma pequena mina dágua próxima ao acampamento e os alimentos disponíveis devem durar mais alguns dias. Uma campanha está sendo iniciada para arrecadar alimentos na região. A previsão dos sem-terra é passar o Natal e a virada do ano no acampamento. A prefeitura de Matão também se dispôs a colaborar, enviando um caminhão-pipa para abastecer os sem-terra. Várias famílias chegaram ao acampamento durante o fim de semana e outras são esperadas nos próximos dias.
A família do trabalhador rural Antonio Carlos, de 37 anos, é uma das mais de 600 que decidiram ir para o acampamento. Ele está junto com a mulher e duas filhas, uma de 6 meses e a outra de 6 anos. Natural de Matão, Carlos colhia laranja e cortava cana para manter a família. Ele disse que a vida na cidade está ficando cada vez mais difícil. "Vim para o acampamento para conseguir um pedaço de terra para plantar e ter minha própria vida", disse. Carlos informou que recebia 1 real por tonelada de cana cortada. "Na colheita da laranja, se for por cooperativa (sem registro na Carteira Profissional), eles pagam 20 centavos por caixa; com o registro em carteira, recebemos 12 centavos por caixa; no final do mês, recebemos pouco mais de 200 reais", disse Carlos.

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