Jacarta, 20 (AE-AP) - Praticamente cego e perseguido por problemas de saúde, Abdurrahman Wahid é um líder islâmico moderado e reverenciado que tem provado ser um dos maiores sobreviventes políticos da Indonésia.
Através de astutas manobras políticas, ele foi eleito hoje (20) como o quarto presidente da Indonésia por uma assembléia de 700 integrantes, marcando uma nova era de democracia e de maior influência religiosa depois de anos de um autoritarismo secular apoiado pelas forças armadas.
Conhecido por seu apelido, Gus Dur, ele lidera o Nahdlatul Ulama, que proclama ser a maior organização islâmica do mundo, com 30 milhões de membros.
O islamismo é uma grande força na Indonésia. Cerca de 90% de sua população de 210 milhões de habitantes são muçulmanos, o que a torna a maior nação islâmica do mundo.
Wahid, 59 anos, tem usado sua influência como intelectual e líder religioso para promover a tolerância sectaria e social em todo o imenso arquipélago.
"Ele apresenta a face doce do Islã", disse Salim Said, um analista político de Jacarta.
Ele é fundador do Partido do Despertar Nacional, que terminou em terceiro lugar nas históricas eleições parlamentares do ano passado. Por isso, ele foi um dos poucos líderes cujo apoio foi buscado pela maioria dos protagonistas na corrida presidencial.
Descrito por seus partidários como um conciliador e eminência parda, alguns críticos o acusam de ser inconstante em políticas e fidelidades.
"Ele é muito imprevisível", afirmou Said.
Sob o regime autoritário do presidente Suharto, que renunciou em meio a distúrbios no ano passado, Wahid defendeu idéias progressistas, como a cooperação entre religiões, que fizeram com que ele ganhasse respeito internacional.
Ele provocou uma controvérsia quando visitou Israel anos atrás e pediu por um maior diálogo entre países islâmicos e o Estado judeu.
Wahid tem consistentemente defendido a minoria chinesa da Indonésia, predominantemente cristã, contra ataques por parte de alguns grupos muçulmanos radicais durante tempos de distúrbios civis.
Desde a renúncia de Suharto, Wahid tem desempenhado um grande papel no movimento por reformas democráticas.
A princípio, ele apoiou a oposicionista favorita Megawati Sukarnoputri. Mas as relações entre os dois azedaram poucas semanas atrás, aparentemente depois que ela recusou-se a se comprometer com concessões para seus interesses muçulmanos caso ela se tornasse presidente.
Durante todo o tempo ele manteve um diálogo com o presidente B.J. Habibie e os politicamente poderosos militares.
Ele então anunciou sua candidatura e rapidamente emergiu como um forte postulante, dizendo que precisava concorrer a fim de ajudar a estimular a democracia.
Quando Habibie abandonou a disputa na manhã de quarta-feira, Wahid forjou uma formidável aliança entre vários partidos, e derrotou Megawati.
Opositores têm questionado suas intenções.
Alguns dizem que ele deveria se manter fora da política e que seria mais útil para a nação como um conselheiro moral.
Outros apontam para o fato de ele ter sofrido dois derrames cerebrais em anos recentes e, apesar de ter se submetido a uma cirurgia ocular nos Estados Unidos este ano, estar praticamente cego.

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