Murilo Fiuza de Melo
Da Agência Estado
De Vitório
Pouco mais de dois anos depois de ser condenado por co-autoria em duplo homicídio, o líder do Movimento dos Sem-Terra (MST), José Rainha Junior, volta a sentar amanhã no banco dos réus. O julgamento será realizado no Salão do Júri da 1ª Vara Criminal do Fórum Muniz Freire, no Centro de Vitória, sob forte vigilância policial. Há informações, não confirmadas oficialmente, que o julgamento poderá ser adiado porque nem todas as testemunhas foram convocadas.
Segundo a PM, no entanto, 800 policiais de quatro batalhões, além do Choque, foram escalados para fazer a segurança da área em torno do fórum, que é cercado por ruas estreitas e está próximo a um hospital, ao Palácio Anchieta, sede do governo estadual, e à Assembléia Legislativa.
No início da semana, documento reservado da PM revelou que poderia haver tumulto no local, mas, mesmo assim, foi negado pedido para que o julgamento fosse transferido para o prédio do Tribunal de Justiça do Estado, distante do Centro. Segundo o MST, a expectativa é de que cerca de 5 mil sem-terra, de vários Estados, assistam ao júri.
Rainha foi julgado em agosto de 97 em Pedro Canário (norte do Estado), onde foi condenado a 26 anos e seis meses de prisão por co-autoria na morte do fazendeiro José Machado Neto e do policial PM Sérgio Narciso da Silva. O crime ocorreu durante invasão da fazenda Ypuera, de propriedade de Machado, em junho de 1989. Por a pena ter sido superior 20 anos, o líder sem-terra teve direito a novo julgamento.
A principal peça da acusação é o depoimento tomado em cartório, em agosto de 1997, do motorista José Jorge Guimarães, o Zé do Coco, que afirma ter levado Rainha e um grupo de 60 sem-terra para invadir a Fazenda Ypuera. No documento, Zé do Coco retifica seu depoimento durante a fase judicial, quando disse que Rainha era um homem ‘‘gordo, sem barba e sem bigode’’.
Segundo o motorista, o líder sem-terra tinha as mesmas características físicas atuais, mas que na época do crime fora obrigado a mudar seu relato porque estaria recebendo ameaças de morte do MST. Apesar de ter sido arrolado no rol de testemunhas da acusação, Zé do Coco, porém, não apareceu no primeiro julgamento.
A defesa, comandada por Evandro Lins e Silva e os advogados Luiz Eduardo Greenhalgh, Aton Fon Filho, anexou 25 depoimentos de pessoas que alegam que Rainha estava no Ceará no dia do crime. Entre os relatos, está o do padre Pedro Paulo Cavalcanti, que guarda anotações no livro de tombo de sua paróquia, em Madalena, sertão cearense, nas quais registram a presença de Rainha na cidade nos dias 6 e 7 de junho de 1989.
Ao contrário do primeiro julgamento, o MST produziu uma forte campanha de marketing em favor do líder sem-terra. Foram impressos 1,7 mil panfletos e 5 mil cartilhas, além de um vídeo de 15 minutos, contando a ‘‘farsa do julgamento’’.

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