Islamabad, 15 (AE-AP) - O líder do golpe de Estado no Paquistão dava hoje (15) os últimos retoques em sua agenda para colocar ordem no caos político do país através de uma "estrutura interina", e buscou a tolerância internacional para seu regime militar.
O chefe do exército, general Pervaiz Musharraf, reuniu-se com seus principais comandantes para discutir "o estabelecimento de uma eficiente e imparcial estrutura interina". Ele também conversou com o embaixador dos Estados Unidos e planejava revelar seu programa num pronunciamento à nação no sábado, segundo um comunicado do exército.
Três dias depois de Musharraf ter derrubado o governo eleito, era palpável entre paquistaneses nas ruas uma esperança de que anos de domínio de políticos corruptos estavam chegando ao fim e que os problemas estruturais do pobre e amplamente analfabeto país seriam enfrentados.
A aceitação pública do novo regime era aparente na ausência de tropas do exército nas ruas e uma atmosfera de normalidade.
"Esta é a quarta vez que os militares tomaram o poder, mas eu nunca vi nada igual. Esta é a mais pacífica transição que já vi", disse Bashir Ahmed, do Instituto para Estudos Regionais.
O comunicado do exército anunciou que o regime interino "garantirá a estabilidade, credibilidade, transparência e responsabilidade na administração dos assuntos do Estado".
Detalhes do governo de transição não foram divulgados. O comunicado também não fez menção de quanto tempo ele irá durar ou se o retorno de procedimentos democráticos era um de seus objetivos.
Mas a referência a uma estrutura "imparcial" implica que Musharraf transferirá a administração do país a tecnocratas apolíticos por um período que pode durar vários anos.
A maior prioridade deles seria a "revitalização econômica, garantindo a integração nacional e uma boa governança", afirma o comunicado.
O embaixador americano, William Milam, entregou a Musharraf uma mensagem do presidente Bill Clinton, dando conta que os Estados Unidos querem um rápido retorno ao regime civil e democrático, disse um porta-voz da embaixada.
O porta-voz afirmou que o general falou em linhas gerais de seus planos futuros, e que o embaixador descreveu mais tarde o encontro para o pessoal da embaixada como tendo sido "bom" - um termo indicando que a reunião de 90 minutos foi menos conflituosa do que poderia ser esperado.
Em Washington, o secretário de imprensa da Casa Branca, Joe Lockhart, disse que Milam não conseguiu obter um comprometimento com uma rápida restauração do regime civil, e afirmou que os Estados Unidos têm poucos instrumentos para pressionar o novo regime. "O Paquistão já está sob pesadas sanções", explicou.
Analistas consideraram que Washington deveria deixar de lado sua cartilha exigindo eleições e permitir que os militares tenham uma chance de colocar a casa paquistanesa em ordem.
"O Paquistão precisa de estabilidade e boa governança muito mais do que de eleições apressadas", disse o ex-embaixador em Islamabad Robert Oakley, expressando o ponto de vista que aparentemente tem respaldo no Departamento de Estado.
Pouco depois da meia-noite desta sexta-feira (horário local), Musharraf declarou um estado de emergência e se autonomeou chefe do Executivo. Ele também suspendeu a constituição e dissolveu a assembléia federal e legislativos provinciais.
O Banco do Estado do Paquistão anunciou que estava congelando as contas do deposto primeiro-ministro Nawaz Sharif, de todos os legisladores do país, e de suas esposas. O anuncio informa apenas que as contas seriam congeladas "até segunda ordem".
A declaração proclamando Musharraf o líder supremo afirma que o presidente do país será mantido no cargo largamente simbólico, mas seria subserviente ao chefe do exército. Legisladores provinciais e federais foram afastados juntos com os ministros do governo e o presidente e vice do Senado.
Os tribunais continuarão a funcionar, mas não terão o poder de desafiar o chefe do Executivo ou o estado de emergência, informou a declaração.
Não havia notícias sobre o paradeiro de Sharif, que foi colocado sob prisão domiciliar depois do golpe de terça-feira.
O genro de Sharif foi detido na noite de quarta-feira em sua casa e foram apreendidos documentos detalhando os negócios da família, segundo fontes de inteligência.
Hafeez Pirzada, um especialista em direito constitucional, disse que existem "indicações" de que o deposto primeiro-ministro será acusado de traição, um crime que pode ser punido com pena de morte. Entretanto, ele não entrou em detalhes.

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