Nova Délhi, 07 (AE-AP) - No mais significante revés ao controle chinês sobre o Tibete em décadas, um líder de 14 anos de uma das mais proeminentes seitas budistas tibetanas fugiu para a Índia, informaram autoridades locais nesta sexta-feira (07).
"Ele veio", disse Desang, secretário de gabinete no exílio da administração do dalai-lama, em conversa telefônica de Dharamsala, no norte da Índia, em referência ao 17º Karmapa, ou Buda vivente. Desang, que utiliza apenas um nome, não forneceu mais detalhes.
Líderes chineses levaram o garoto à frente da ordem religiosa Karma Kagyu em 1992 e utilizaram-no como um símbolo de seu controle sobre o Tibete. Ele é a mais importante personalidade tibetana a desertar desde que seu predecessor, o 16º Karmapa, e outros clérigos budistas, entre eles o atual dalai-lama, fugiram após um levante antichinês em 1959.
O dalai-lama, líder espiritual de milhões de budistas, lidera um governo no exílio na cidade indiana de Dharamsala.
A Agência de Informações do Conselho de Estado reconheceu que o 17º Karmapa deixou seu monastério no centro do Tibete com um "pequeno número de seguidores", informou a agência de notícias estatal Xinhua nesta sexta-feira.
Segundo a Xinhua, o Karmapa viajou à Índia para pegar os intrumentos musicais e chapéus pretos utilizados por seus predecessores e citou uma carta dizendo que ele não pretende "trair o Estado, a nação, o monastério nem a liderança".
Robbie Barnett, um especialista em budismo tibetano da Universidade de Columbia, Nova York, disse que o 17º Karmapa deixou o monastério de Tsurphu, de 800 anos, em 28 de dezembro acompanhado de criados e andou até a Índia, chegando quarta-feira a Dharamsala, onde encontrou-se com o dalai-lama.
A seita Kagyupa, conhecida como "Chapéus Pretos", já foi a mais poderosa força política do Tibete. A ordem religiosa tem um grande monastério em Woodstock, Nova York. A seita foi suplantada no Tibete pela escola Gelugpa dos dalai-lamas há 350 anos.
O 17º Karmapa provavelmente viajará a Rumtek, Sikkim, sede no exílio do predecessor do 16º Karmapa, morto em 1981.
O 17º Karmapa foi escolhido como reencarnação do 16º Karmapa após uma batalha entre importantes discípulos na sede do grupo no exílio em Sikkim, na Índia. Os discípulos vencedores trabalharam então com a liderança chinesa para ver o garoto instalado em Tsurphu, tradicional residência dos Karmapas.
Documentos divulgados pelo governo chinês apontaram os vestuário do 17º Karmapa e a restauração de Tsurphu como exemplos do apoio de Pequim ao budismo tibetano.
No ano passado, o Karmapa apareceu em público com outra encarnação controvertida, o garoto cuja China obrigou clérigos do Tibete a nomear como Panchen Lama, passando por cima de um candidato rival nomeado pelo dalai-lama.
O Karmapa é primeiro proeminente "tulku", ou reencarnação de uma pessoa santa, a ser reconhecido oficialmente pelo moderno estado chinês, em um acordo fechado com seu professor, Tai Situ Rinpoche, em 1992. Segundo o acordo, o Karmapa teria permissão para viajar para fora da China.