Rio, 13 (AE) - Uma troca de acusações entre o governador Anthony Garotinho (PDT) e o líder do partido na Assembléia Legislativa, Paulo Ramos, aprofundou hoje a crise aberta no governo por denúncias de suposto superfaturamento no projeto Delegacia Legal, de modernização de distritos policiais, feito pelo Estado. O líder pedetista no Legislativo anunciou que vai pedir investigações sobre o caso e disse que o governador é "dependente intelectual" de um grupo que não entende de polícia e quer terceirizar o Estado, "contratando amigos".Garotinho acusou Ramos de ser contra a reforma do sistema policial.
"Vou exigir os pareceres das duas comissões sobre o caso e o da Procuradoria do Estado, que afirmou não ter havido irregularidades", disse Ramos. Depois que a primeira comissão apontou o suposto superfaturamento, o subsecretário Luiz Eduardo Soares determinou a formação de outro grupo, que fez nova investigação e não achou ilegalidade. O parlamentar afirmou ainda que Garotinho não escreveu o livro "Violência e Criminalidade no Estado do Rio de Janeiro" (Garotinho se apresenta como co-autor) e declarou que o fato de o governador ter participado de foros sobre o assunto não significa que o conheça.
Garotinho foi áspero ao falar do líder de seu partido. "Ele quer continuar com essa política que, ao longo dos anos, foi perdendo a confiança da população", atacou. Segundo ele, a Procuradoria Geral do Estado constatou que o primeiro relatório sobre o caso tinha erros, como considerar simples cotações como preços efetivamente praticados. "Não podemos dizer se isso foi por ingenuidade, incompetência ou maldade", disse o governador. Ele afirmou que os itens foram cotados pelos preços mais altos (que acabaram não sendo pagos) por causa da variação cambial de janeiro.
Demissões - A crise já resultou em pelo menos quatro demissões. Uma delas foi a do delegado Carlos Alberto dOliveira
que perdeu o cargo de chefe da Polícia Civil para o delegado Rafik Louzada, cuja nomeação foi anunciada hoje. Também foram demitidos o subsecretário administrativo Edmar Ferreira e o assessor jurídico Paulo César dos Santos por terem integrado comissão que constatou o suposto superfaturamento de 47,89% na compra de equipamentos. Outro demitido é o delegado Carlos Alberto Nunes Pinto, que era subsecretário de Assuntos Especiais.
Coppetec - O diretor da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe-UFRJ), Sergen Estefen, anunciou hoje que a Fundação Coppetec, ligada à Coppe e contratada para o projeto Delegacia Legal, vai processar os integrantes da comissão que apontou o suposto superfaturamento. "O bem público não foi lesado", afirmou. Estefen reconheceu, porém, que as obras do primeiro distrito incluído no programa, a 5ª DP, começaram em janeiro e o contrato com o Estado só foi assinado em março, duas semanas antes da inauguração. Também não houve licitação, dispensada por parecer da Procuradoria Geral do Estado.
O professor reclamou que "estão querendo fantasiar os integrantes da Coppe de bandidos". Ramos acusara a Coppetec de servir de fachada para terceirização irregular de serviços. "Eu declaro que o deputado é um imbecil", respondeu Luiz Pinguelli Rosa, também da Coppe. O professor Marcos Cavalcanti, um dos coordenadores, na Coppetec, da Delegacia Legal, explicou que, inicialmente, os equipamentos de informática foram orçados em R$ 1.290.000 (por causa da crise do dólar de janeiro), mas esse preço acabou caindo para pouco mais de R$ 877 mil. "É esse o superfaturamento de 47,89% apontado", disse.
O deputado pedetista insistiu que a primeira comissão fez uma pesquisa de mercado e constatou a diferença. Ao todo, o preço inicial era de R$ 3,8 milhões, reduzido para cerca de R$ 3 5 milhões em setembro, depois que o primeiro relatório apontou o suposto superfaturamento. Estefen eximiu a Coppe de responsabilidades pelos problemas constatados em outras duas Delegacias Legais, a 6ª e a 10ª."Só fizemos a 5ª", disse. Ele atribuiu o primeiro relatório à suposta intenção dos membros da comissão de "desestabilizar" Luiz Eduardo Soares.

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