O diretor regional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Josmar Choptian, prestou depoimento ontem à tarde no 4º Distrito Policial de Londrina e negou ter participado da invasão de uma das casas da fazenda Borborema, em Tamarana (60 quilômetros ao sul de Londrina). A invasão, ocorrida em 27 de abril, resultou na morte do segurança José Lopes de Oliveira, o Django, 36 anos. Choptian culpou o presidente Fernando Henrique Cardoso pelo conflito, por ainda não ter promovido a reforma agrária. ‘‘Se ele não fizer a reforma, haverá outras mortes’’, afirmou.
Josmar Choptian chegou tranquilo à delegacia e, durante todo o interrogatório, esteve acompanhado de quatro advogados do MST e da Pastoral da Terra, de Curitiba. Também estava presente o deputado federal Roque Zimmermann (PT), que veio de Brasília a pedido do MST. O depoimento durou duas horas e foi prestado ao delegado Jurandir Gonçalves André, que preside o inquérito sobre o crime.
Josmar Choptian assistiu às gravações feitas por uma emissora de TV no dia do conflito e negou que tivesse organizado a invasão. Ele alegou que, no momento do crime, estava cerca de 20 metros da casa. O diretor do MST afirmou que foi à fazenda Borborema tentar apaziguar os ânimos dos sem-terra, que estavam revoltados porque, na véspera, haviam sido ameaçados de morte por seguranças contratados para retirá-los do local. Ele afirmou que Django agiu com muita violência, inclusive ‘‘colocando o revólver na boca de crianças’’. ‘‘Mas isso não justifica o crime’’, ressaltou.
Ao ser questionado pelo delegado sobre quem teria participado da invasão, Choptian alegou não conhecê-los pelos nomes. O diretor do MST disse ainda não saber quem disparou o tiro que matou Django. Segundo ele, cabe à polícia descobrir o autor do crime. ‘‘Vamos trabalhar para que o crime seja apurado da melhor maneira possível’’, completou.
Sobre a informação do Instituto de Criminalística de que o segurança já estava dominado quando recebeu o tiro, o diretor do MST falou da possibilidade de a vítima, mesmo estando deitada, ter tentado revidar. ‘‘Quem garante que ele não teria tentado puxar a arma?’. Ele alegou que os sem-terra resolveram invadir a casa para desarmar os seguranças (além de Django, estava na casa Edson Ricardo Lucena, 22 anos) e entregá-los à polícia.
Josmar Choptian foi apontado pelo delegado como uma das pessoas que participou da invasão por causa de imagens gravadas por um cinegrafista. Ele aparece correndo, com o rosto coberto por um casaco. O acusado confirma que estava escondendo o rosto por temer represálias de Django. ‘‘Ele já tinha me ameaçado um dia antes’’, afirmou.
Segundo o delegado Jurandir André, o diretor do MST disse ainda, durante o depoimento, que cerca de 60 sem-terra cercaram a fazenda no dia da morte de Django e que 13 deles estavam armados. O delegado decidiu indiciar Josmar Choptian como co-autor do crime. ‘‘Ele estava no local do crime e estava armado’’, alegou. O acusado responderá ao inquérito em liberdade.
Jurandir André disse acreditar que o diretor do MST é o mentor de toda a ação que culminou com a morte do segurança. ‘‘Acho que não era intenção matar ninguém, mas eles perderam o controle’’, observou. O delegado afirmou já saber a identidade de vários co-autores do crime, mas evitou dar detalhes. ‘‘Mais de dez pessoas participaram e elas serão ouvidas uma a uma’’, disse.
Ontem de manhã, o delegado ouviu depoimentos de sete pessoas, entre moradores da região e seguranças contratados pelo arrendatário Pedro Ribeiro para a retirada das famílias sem-terra. ‘‘Elas acrescentaram alguns detalhes importantes’’, resumiu. O promotor da 1ª Vara Criminal de Londrina, Janderson Iassaka, que está acompanhado o inquérito, disse que nenhum dos seguranças ouvidos admitiu ter usado de violência contra os sem-terra.

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