Líder do MST convoca manifestantes a destruir pedágios e ocupar usinas
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quarta-feira, 06 de outubro de 1999
Por Eugênio Melloni e Hugo Marques 
Brasília, 07 (AE) - O principal líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), João Pedro Stédile, convocou hoje os manifestantes da Marcha Popular pelo Brasil a destruir pedágios, ocupar usinas hidrelétricas e impedir o trânsito nas estradas no dia 10 de novembro, quando os movimentos sociais pretendem fazer uma "paralisação nacional". "Quebrem os pedágios", disse Stédile.
O Palácio do Planalto não se pronunciou sobre o assunto. Segundo os organizadores, a marcha contra a política econômica do governo e o Fundo Monetário Internacional (FMI) reuniu 15 mil pessoas, 10 mil a mais do que a estimativa da Polícia Militar do Distrito Federal.
O discurso do líder do MST foi feito no final da marcha, em frente o prédio do Banco Central, em Brasília. Stédile disse que as rodovias foram construídas pelo Brasil e que os pedágios "quem pôs foi o FMI ". O discurso do líder do MST causou mal-estar até entre os parlamentares de oposição, que acompanhavam a marcha. "Vou conversar com o Stédile", disse o senador Eduardo Suplicy (PT-SP). "Ele exagerou".
Stédile recomendou aos manifestantes que no próximo dia 10 invadam todos os latifúndios. Disse que os caminhoneiros devem parar nos postos de gasolina e dormir, que neste caso "terão menos prejuízo" do que se tivessem de pagar pedágios. Na opinião de Stédile, "o povo precisa pegar nas mãos o destino deste País".
Recuo - Poucos minutos após o discurso, Stédile desceu do carro de som e tentou amenizar o que dissera aos manifestantes. O líder do MST disse que todos as pessoas que compõem a marcha conhecem seu jeito de discursar e entendem que ele não prega a violência. "Isso não é incitação ao quebra-quebra", disse.
Segundo Stédile, seu desejo é que a população "ocupe" as estradas, as fazendas, os pedágios e as áreas de usinas em construção, que teriam expulsado agricultores de áreas atingidas pela água. Sem dar destaque ao tema reforma agrária, Stédile afirmou ser necessário fazer um movimento contra o governo e o FMI. Procurados, autoridades do governo federal se recusaram a comentar as declarações do coordenador do MST.
Marchas - O líder do MST afirmou que a marcha rumo a Brasília cumpriu seus objetivos ao mobilizar a sociedade para a discussão de um novo projeto popular de governo, mas que isto foi apenas o início da mobilização nacional. "Teremos outras marchas", disse.
Ao contrário do que estava previsto, o discurso sobre as motivações da Marcha Popular pelo Brasil sofreu uma guinada radical hoje pela manhã, antes que os manifestantes deixassem o Núcleo dos Bandeirantes, onde pernoitaram, rumo à capital federal. No carro de som que acompanhou a marcha, o coordenador nacional do MST, Gilmar Mauro, exortou os manifestantes a utilizar na caminhada palavras de ordem pregando o impeachment do presidente Fernando Henrique Cardoso.
Até a quarta-feira os líderes da caminhada vinham negando que a manifestação tivesse esse intuito. O caráter apartidário da iniciativa também foi esquecido, com a presença de parlamentares e lideranças do PT e de militantes do PSTU nos dois últimos dias da marcha.
Cerca de 4 mil pessoas partiram, às 7h30, rumo a Brasília, segundo avaliação da Polícia Militar. A maior parte dos manifestantes incorporou-se à marcha nos dois últimos dias, em caravanas que partiram de ônibus de vários Estados, engrossando o protesto dos 1.100 manifestantes que percorreram, em mais de 70 dias, 1.500 quilômetros entre o Rio e Brasília.
Protesto - A marcha teve o apoio da Companhia de água e Esgoto de Brasília (Caesb), que cedeu dois caminhões-pipa ao longo do trajeto. Na Praça do Compromisso, os manifestantes fizeram ato público ao lado do monumento em homenagem ao índio Galdino Jesus dos Santos, que morreu queimado por cinco jovens da classe média de Brasília, em abril de 1997. Índios de algumas tribos fizeram protesto ao lado do monumento.
Na mesma praça, os manifestantes fizera uma cerimônia "lava-pés". O presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), d. Tomás Balduíno, lavou os pés de vários manifestantes, entre eles o mais velho da caminhada, o agricultor Luís Beltrame, que completa 91 anos quarta-feira.


