São Paulo, 27 (AE) - O diretor da Associação dos Camelôs Independentes de São Paulo, José Antônio Fernandes, o Alemão, acusou hoje o secretário Alfredo Mário Savelli, das Vias Públicas, então na Secretaria das Administrações Regionais (SAR)
e dois de seus funcionários de exigir R$ 1,25 mil de cada camelô do Brás, no ano passado, para que eles trabalhassem nos bolsões de comércio ambulante criados pela Prefeitura. O depoimento foi dado na Divisão de Registros Diversos da Polícia Civil, onde o delegado Romeu Tuma Júnior investiga a máfia dos fiscais no centro da cidade.
Outros depoimentos dados a Tuma Júnior nos últimos dias ligam Savelli ao presidente da Associação dos Comerciantes do Brás, Wehbe Dawalibi, o Jô, que teve a prisão temporária decretada e ainda não se apresentou. O secretário disse hoje que faz questão de prestar depoimento na segunda-feira, para negar as acusações. "Conheço o Jô como representante de lojistas, mas nem sei seu nome completo."
Os nomes dos funcionários da SAR seriam Sandra e Fernando. Savelli confirmou que havia uma assistente social de nome Sandra na SAR, mas disse que engenheiro chamado Fernando só tem na Administração Regional da Sé. Alemão disse que os R$ 1,25 mil seriam destinados à compra de barracas da empresa WSITA. "Fizemos uma sugestão de padrão para as barracas, que seriam compradas voluntariamente das quatro ou cinco empresas interessadas", diz Savelli. Enquanto Sandra e Fernando recolheriam dinheiro dos camelôs, conforme a denúncia, Dawalibi faria o mesmo com os comerciantes. Sandra ainda cobraria R$ 48 00 para a escolha do ponto.
O secretário, que acumula também a pasta de Serviços e Obras, desconsidera o depoimento de Alemão. "É um descontrolado
uma pessoa que fazia bagunça na cidade e chegou a ficar bêbado e nu na rua em um protesto", acusou. Ele acha que a "primeira coisa a ser feita" é fazer um exame de sanidade mental no ambulante. "Isso tudo é um movimento de desvalorização do trabalho de um ano e meio (de remoção de camelôs) para tornar esta cidade mais decente."
Tuma Júnior disse que vai ouvir todas as pessoas citadas. "No mínimo como direito de defesa", afirmou. Além de Alemão, outras três pessoas seriam ouvidas hoje à noite sobre a participação de funcionários da SAR em "caixinhas". O ambulante disse que elas iriam confirmar sua história.
Viaduto - O presidente da Associação dos Camelôs Independentes, Gilberto Monteiro da Silva, de 36 anos, conhecido como o "dono do Viaduto Santa Ifigênia", revelou o esquema de arrecadação de propina dos ambulantes no local, que rende cerca de R$ 30 mil por mês.
Segundo ele, o dinheiro era entregue no gabinete, em envelopes, por diversas pessoas, a um assessor do vereador e deputado eleito Hanna Garib (PPB), cujo nome ele pede para não ser revelado. Silva teve a prisão temporária de cinco dias decretada segunda-feira e foi detido na terça. Ele é acusado de concussão e formação de quadrilha.
A propina também seria levada pelos camelôs ao gabinete. Cada um entregava R$ 700,00 por semana; R$ 200,00 seriam para a gasolina gasta pelo assessor. Na sede da associação, a polícia apreendeu dois cartões desse assessor. O auxiliar de Garib, segundo Silva, deixava claro que, se o dinheiro não chegasse, o presidente da associação "perderia" o viaduto. "O assessor ligava e dizia que o homem (o vereador) era poderoso e se eu não mandasse o dinheiro teria de sair."
Dos R$ 30 mil arrecadados dos 226 ambulantes que ocupam o Santa Ifigênia, R$ 10 mil iriam para o seu bolso e R$ 5 mil para os serviços de segurança e limpeza prestados pela associação no local. Os R$ 15 mil restantes seriam propina. Os camelôs desembolsam de R$ 25,00 a R$ 35,00 por semana.
Pierre Salloum El Nanhoum - que foi funcionário da Regional da Sé até 1997, atuou na campanha de Garib e estava com ele no dia da apuração do resultado no Tribunal Regional Eleitoral - receberia de R$ 1 mil a R$ 2 mil semanais. O esquema é tão organizado que só entra ou sai do viaduto quem Silva quer. Há seguranças que avisam pelo rádio quem pode ficar e quem deve sair. O equipamento serve também para captar e repassar informações da regional da Sé sobre o rapa. Silva foi preso na terça-feira. Seu nome foi citado em diversos depoimentos do inquérito da Santa Ifigênia.
Hanna Garib negou anteontem sua partipação no esquema. Disse que conhece o presidente da associação só "de vista". "Falar na delegacia é muito fácil, quero ver como vai ser na Justiça", disse. "Estou processando todos os que estão dizendo essas mentiras."

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