Liberdade de imprensa no Brasil ainda sofre restrição
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segunda-feira, 22 de março de 1999
Da Redação 
Ampla liberdade de imprensa, aumento das pressões e violências, diversas tentativas de criação de legislações restritivas ao exercício da imprensa livre, absoluta impunidade nos crimes contra jornais e jornalistas, e falta de compreensão adequada, por parte dos poderes públicos, do papel da imprensa numa democracia. Esse foi o quadro da liberdade de imprensa no Brasil apresentado pelo jornalista Paulo Cabral na Reunião de Meio de Ano da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), que começou no dia 19 e termina hoje, em Montego Bay (Jamaica).
Cabral apresentou o Relatório sobre Censura, Agressões, Ameaças e Assassinatos de Jornalistas no Brasil, durante reunião da Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação da SIP, da qual é vice-presidente Regional para o Brasil. O relatório, referente aos últimos seis meses, destaca a linha tênue que sustenta a liberdade de imprensa mesmo nos países da América Latina onde vigora a democracia.
No caso do Brasil, disse Cabral, os jornais brasileiros têm trabalhado com independência e responsabilidade, ao mesmo tempo em que lutam pela manutenção de suas liberdades essenciais. Liberdades essas que, na verdade, não nos pertencem, mas aos nossos povos. A resposta tem compensado o esforço, na medida em que temos registrado altos índices de credibilidade.
Dentre os fatos mais recentes, ele destacou a iniciativa de cerceamento que tramita no Congresso Nacional, o projeto de lei nº 2.961/97, originário do Poder Executivo, que, se for aprovado, proíbe manifestações, por qualquer meio de comunicação, de autoridades policiais, administrativas ou judiciárias, sobre inquéritos e processos em andamento, na Polícia ou na Justiça, até que seja emitido o julgamento final.
Além de ser considerado inconstitucional, esse projeto de lei significa uma censura direta à cobertura da imprensa de fatos e ocorrências, inibindo o jornalismo investigativo, ressaltou Paulo Cabral. Entidades como a Associação Nacional de Jornais (ANJ), representativa dos jornais, e outras que representam revistas, emissoras de rádio e de televisão já se manifestaram ao presidente da Câmara dos Deputados contra o projeto e estão acompanhando o assunto em conjunto.
Ele também destacou na reunião da SIP o projeto da nova Lei de Imprensa, em tramitação no Congresso Nacional, para substituir a de 1967, editada sob o regime militar. As empresas jornalísticas brasileiras, por meio de suas associações, têm alertado os parlamentares e líderes dos partidos políticos para o risco de restrições à plena liberdade de imprensa, o que seria inaceitável, disse Cabral. O projeto encontra-se na presidência da Câmara dos Deputados.
Outra restrição que surge no Brasil é a inclusão, no rascunho do que poderia ser o Novo Código Penal Brasileiro, de artigo estabelecendo pena de detenção de três meses a um ano para o jornalista que divulgar notícias que contribuam para influenciar ou induzir juízes, testemunhas ou jurados em processos correntes no Poder Judiciário. O argumento usado é de coação indireta no curso do processo, sob a alegação de que os meios de comunicação praticam publicidade opressiva, capaz de influenciar nas decisões de juízes.
Trata-se de frontal ameaça à liberdade de imprensa, segundo Paulo Cabral, adiantando que será feito um trabalho de acompanhamento e ação durante a tramitação do assunto quando chegar ao Congresso Nacional. Por enquanto, a iniciativa está no âmbito do Ministério da Justiça, que estuda a atualização do Código Penal.
O relatório apresentado à SIP tratou, ainda, dos crimes impunes contra jornalistas. Dos oito casos que ocorreram entre 1995 e 1998, dois deles recebem atenção especial da SIP, por intermédio da Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação e do Programa Crimes sem Castigo contra Jornalistas.
Os processos relativos aos assassinatos de Aristeu Guida da Silva e Zaqueu de Oliveira, ocorridos em 1995, serão apresentados em maio próximo, durante as comemorações do Dia Mundial da Liberdade de Expressão, promovidas pela UNESCO, em Paris. Com o apoio da ANJ, a assessora da SIP, jornalista Ana Arana, apurou o histórico desses crimes e relatou as investigações na 54ª Assembléia Geral da SIP, em Punta del Este, em novembro de 1998.
No caso do jornalista Zaqueu de Oliveira, dono de A Gazeta de Barroso, de Barroso (MG), a Procuradoria do Tribunal de Justiça deu parecer favorável para que o acusado seja submetido a júri popular. Isso renovou a esperança de que o assassino possa ser finalmente julgado e o crime contra Zaqueu de Oliveira não fique impune, enfatizou Cabral.


