Lerner determina afastamento de policiais citados na CPI
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terça-feira, 29 de fevereiro de 2000
Por Evandro Fadel 
Curitiba, 01 (AE) - O governador do Paraná, Jaime Lerner (PFL), determinou hoje o afastamento de todos os policiais citados nos depoimentos à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico na Câmara dos Deputados em Curitiba, entre eles, o delegado-geral da Polícia Civil, João Ricardo Keppes de Noronha. Ele foi acusado por três testemunhas de ter conhecimento de corrupção nas delegacias que comandou e ter acobertado as ações ilícitas de policiais. O delegado foi convocado para depor na CPI, o que poderia acontecer ainda hoje.
O secretário de Segurança Pública do Paraná, Cândido Martins de Oliveira, não soube informar quantos policiais estavam sendo afastados, mas 19 tinham sido citados. Também foram citados os nomes de seis delegados, além de Noronha, entre eles, o ex-delegado-geral Newton Rocha. Segundo Oliveira, outros que ainda forem citadas também serão afastados. No mesmo ato, o governador nomeou o delegado Marco Antônio Lagana para responder pelas funções de delegado-geral, "com a incumbência de promover a apuração, no âmbito da Polícia Civil, de todas as responsabilidades, na forma da lei".
O ex-policial Humberto Terêncio, preso por tráfico de drogas em 1998, deu o depoimento mais contundente contra Noronha. Ele disse que três policiais que trabalhavam no Comando de Operações Policiais Especiais (Cope) - Volga, Augusto e Nei Prosdócimo - o teriam apresentado a Noronha, que chefiava a delegacia: "Esse é o Humberto, daquela parada do pó." Terêncio disse que Noronha o teria mandado conversar com a investigadora Volga, que tinha conhecimento do "serviço". O "serviço" era a busca de 40 quilos de cocaína e um caminhão em Foz do Iguaçu (PR). Mas Terêncio foi preso pouco antes.
O secretário de Segurança Pública disse hoje à tarde que somente vai fazer "juízo de valor" quando tiver o relatório final da CPI. "Por enquanto, o que temos são denúncias e manifestações de membros da CPI que dão credibilidade às denúncias", afirmou. Segundo ele, o afastamento dos delegados e policiais civis "não é um julgamento, uma decisão final". "Todos poderão apresentar suas razões e defesas." Oliveira disse que, como os membros da CPI, ele também se surpreendeu com as revelações. Ele afirmou nunca ter recebido denúncias em relação aos delegados citados, embora houvesse algumas sobre policiais. "As informações eram genéricas, vagas, a maioria delas anônimas", disse.
"Nessa escala que está aparecendo, nunca ouvi." Segundo ele, comentários de que policiais ficam com parte de droga apreendida para revender "é conversa que se ouve permanentemente".
Ele garantiu que sempre fez tudo para que as denúncias que apareciam fossem investigadas. Segundo ele, a intervenção determinada em 1996, quando o delegado Adauto Abreu de Oliveira assumiu a Delegacia Antitóxicos, foi uma das iniciativas. Na época, o delegado trocou toda a equipe da delegacia, que era suspeita de irregularidades.
Outra atitude, segundo o secretário, foi a criação do grupo Força Especial de Repressão Antitóxicos (Fera), comandada por Abreu de Oliveira. "Ou ele é incompetente ou age como marido traído, sendo o último a saber", disse o deputado federal Pompeo de Mattos (PDT-RJ), surpreso com o fato de o secretário não ter tomado nenhuma atitude para sanear a Polícia Civil.
O secretário disse que as denúncias vão abalar "profundamente" a instituição. "Mas acho que ela tem pessoas e força moral para se recuperar", afirmou. Para ele, as avaliações que estão sendo feitas por membros da CPI de que no Paraná a Polícia Civil comanda o tráfico de drogas "é juízo de valor muito pessoal". "Até agora, não foi ouvido nenhum dos acusados e a avaliação é feita baseada em depoimento de criminosos e traficantes presos e condenados." Mas declarou que a CPI tem sido "fundamental" para desvendar o esquema do narcotráfico. "A Polícia Civil não iria desvendar se não fosse a CPI", disse. "Ela tem poderes que nem a polícia tem."


