Basta uma conversa rápida com os alunos da EJA da Escola Ruth Ferreira para perceber uma palavra em comum que ganha entonação de algo quase sagrado nos diálogos: "voltar". A oportunidade do retorno às aulas depois de "muitas rasteiras passadas pela vida", como ilustra a pernambucana Josefa Ribeiro da Silva, de 73 anos, a mais idosa da escola, tem gosto de redenção. Eles superaram a vergonha, o medo de não conseguir e transformaram todos os sentimentos negativos em orgulho, no bom sentido da palavra.

O sonho de Josefa era poder ler a bíblia sozinha. "Agora eu leio todo dia. Tem que ler, né? Antes, eu dependia da minha filha. Ela lia um pouquinho e já parava. Não tinha paciência. Ah, é tão bom não precisar depender dos outros", comemora. Já Luiz Alves Bueno, de 58 anos, resolveu procurar a escola em 2012 para se livrar de uma depressão. Não imaginava que o ensino iria mudar toda a vida. "Eu era pedreiro e hoje sou mestre de obras. Tudo o que eu sabia era na prática. Agora, leio projetos e estudo novas técnicas", comenta. "É tão bom olhar uma placa e saber o que ela está dizendo", destaca.

Débora Maria da Silva, de 43 anos, sentiu a necessidade de avançar nos estudos após perder o marido em um acidente de moto, em 2013. No início, ela sentiu estranheza de voltar aos bancos escolares depois de 20 anos, mas o desejo de aprender falou mais alto. "Os professores são muito atenciosos e nos ajudam bastante", elogia. Assim que terminar o ensino médio, Débora pretende cursar gastronomia. "Estou me esforçando para realizar esse sonho", diz.

Outra que corre atrás de um objetivo específico é a auxiliar de serviços gerais Maria Aparecida da Silva, de 55 anos. Ela quer tirar a carteira de motorista. "Não vejo a hora de poder dirigir meu carro pelas ruas de Londrina. Estou fazendo minha parte e estudando bastante", conta. Se a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) ainda não veio, ela já pode se orgulhar de outras conquistas. "Consegui um emprego melhor porque o estudo me ajudou. Acho que tenho chances de crescer mais ainda. Sou simpática e comunicativa e tenho facilidade em lidar com o público", faz a autopropaganda. Rosilda Ferreira da Silva, de 55 anos, e Roseli Costa Guilherme, de 48, também voltaram a estudar à procura de melhores oportunidades.

Josefa Ribeiro da Silva, 73 anos:"Agora eu leio todo dia. Tem que ler, né? Antes, eu dependia da minha filha"
Josefa Ribeiro da Silva, 73 anos:"Agora eu leio todo dia. Tem que ler, né? Antes, eu dependia da minha filha"


A psicopedagoga da rede municipal de Educação de Londrina, Geocélia Alves Ribeiro, conta que os alunos da EJA necessitam de atenção especial. "São pessoas que tiveram um passado difícil. Às vezes, uma palavra fora de lugar pode significar a desistência desse aluno", expõe. Prestes a se aposentar, a auxiliar pedagógica da escola, Maria Rosemari de Souza, também destaca as características da modalidade de ensino. "As dificuldades são grandes, mas a recompensa é enorme. Comemoramos cada vida que ajudamos a transformar".

Muitas vezes, o trabalho extrapola os muros da escola. No início do ano letivo, as professoras da rede municipal da EJA foram buscar os alunos em casa. Marilda Lana, de 40 anos, era uma das estudantes que tinham abandonado as aulas, mas que retornaram após a visita das professoras. "Conversamos bastante e dessa vez eu vou até o fim", garante ela.

A rede municipal de Londrina conta com 33 escolas de EJA. De acordo com dados do IBGE, a taxa de analfabetismo no município é de 4,18%, cerca de 23 mil pessoas que não sabem ler nem escrever. (C.F.)

Debora Maria da Silva, 43 anos: "Os professores são muito atenciosos e nos ajudam bastante. Estou me esforçando para realizar esse sonho"
Debora Maria da Silva, 43 anos: "Os professores são muito atenciosos e nos ajudam bastante. Estou me esforçando para realizar esse sonho"
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